
Há muito tempo não se via uma análise tão precisa sobre a alienação ideológica quanto a que Luciano Trigo traça ao comparar o "Homo Sovieticus", do dissidente soviético Aleksandr Zinoviev, com o "Homo Brasiliensis" dos dias atuais. O texto explora de forma brilhante a cegueira ideológica que impede muitos brasileiros de enxergar o óbvio, criando uma sociedade marcada pela passividade e descrença. Em 1982, Zinoviev investigou como o cidadão soviético se adaptava à opressão de um regime totalitário. Hoje, no Brasil, encontramos paralelos alarmantes, com indivíduos que, mesmo em uma democracia, internalizam uma lógica de controle e resignação.
A adaptação ao sistema opressor
O "Homo Sovieticus" de Zinoviev é descrito como um indivíduo moldado por um sistema que promove obediência e conformismo. Sob a constante vigilância do regime, as pessoas aprendem a aceitar a opressão como parte da vida cotidiana. Da mesma forma, o "Homo Brasiliensis", após décadas de corrupção, ineficiência e escândalos políticos, desenvolveu um ceticismo profundo em relação ao governo e às instituições. A realidade cotidiana contradiz as promessas oficiais, levando à desconfiança, mas sem gerar rebeldia. Assim como no regime soviético, a aceitação pública do sistema se mantém, enquanto, em privado, a descrença e o cinismo prosperam.
A alienação social e a dupla consciência
No Brasil, a expressão genuína de opiniões políticas tornou-se arriscada. O medo de retaliações sociais ou profissionais, especialmente nas redes sociais e no ambiente de trabalho, faz com que muitos adotem uma postura de autocensura. Esse comportamento é semelhante ao do "Homo Sovieticus", que mantinha uma "dupla consciência", diferenciando o que podia ser dito em público do que realmente pensava. No Brasil de hoje, essa dissociação também é evidente, alimentando a alienação e o conformismo.
Passividade e a falta de iniciativa
Zinoviev argumenta que o "Homo Sovieticus" era um produto do sistema, adaptando-se às normas repressivas para sobreviver. No Brasil, o "Homo Brasiliensis" muitas vezes espera que o Estado resolva seus problemas, sem tomar as rédeas do próprio destino. A meritocracia é vista com desdém, e a busca por reconhecimento individual é reprimida. Esse cenário cria uma cultura de mediocridade, onde a iniciativa é desincentivada, e o esforço individual é percebido como inútil. No lugar de uma rebeldia transformadora, o brasileiro desenvolveu o "jeitinho" para contornar regras, contribuindo para perpetuar a disfuncionalidade do sistema.
Fatalismo e apatia generalizada
Assim como no império soviético, o "Homo Brasiliensis" lida com crises políticas e econômicas frequentes, violência urbana e desigualdade social endêmica com uma atitude fatalista. A crença de que nada vai mudar reforça uma apatia generalizada, onde as dificuldades são aceitas com resignação. Essa passividade é um mecanismo de defesa em um contexto de incerteza e precariedade, mas também perpetua a disfunção social, já que a indignação nunca se transforma em ação concreta.
Conclusão: A perpetuação de um ciclo vicioso
O "Homo Sovieticus" e o "Homo Brasiliensis" compartilham uma característica crucial: a aceitação de um sistema falho e opressor como se fosse imutável. Seja na União Soviética de 1982 ou no Brasil de 2024, a indiferença, o conformismo e a falta de ação crítica mantêm a sociedade presa em um ciclo vicioso. A alienação ideológica e a adaptação ao sistema contribuem para a estagnação, enquanto a moralidade é flexibilizada para justificar a própria sobrevivência dentro desse esquema disfuncional.
Em ambos os contextos, a sobrevivência individual prevalece sobre o bem comum, e as possibilidades de mudança parecem cada vez mais distantes.
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