
Lula desembarca em Teresina nesta quarta-feira cercado pelo carinho do palanque governista e pela força de um Estado que, em 2022, lhe deu 74% dos votos no primeiro turno e 76,84% no segundo, o melhor desempenho do petista no País. Mas a pergunta é inevitável: que Piauí Lula vai encontrar quatro anos depois? O presidente vem acompanhado de Rafael Fonteles e aliados, com agenda política e visitas a obras. A recepção certamente será calorosa. A dúvida é se esse carinho será suficiente para transformar o passado eleitoral em voto futuro.
Rafael Fonteles se apresenta como candidato forte e as pesquisas lhe dão vantagem, mas sua reeleição não está assegurada. Do outro lado, encontra uma oposição competitiva, liderada por Joel Rodrigues, que tenta transformar a eleição em uma disputa real. Mas o maior adversário de Rafael pode não estar no palanque da oposição. Pode estar nas ruas, nas casas e, principalmente, nas torneiras vazias. É o eleitor desiludido com promessas que não chegaram à vida real, com obras anunciadas, projetos grandiosos e resultados que muitas vezes não aparecem na mesma proporção da propaganda oficial.
É justamente aí que a visita de Lula ganha outra dimensão. O presidente vem ao Piauí para reforçar a aliança com Rafael e mostrar obras, como a duplicação da BR-316 e a expansão do VLT. Mas também encontrará um Estado que quer saber onde foram parar algumas das promessas que alimentaram discursos e campanhas. Cadê o hidrogênio verde? O porto? A transposição do Rio Parnaíba? Os hospitais prometidos? E os avanços concretos na Educação e na Segurança Pública? O eleitor pode até reconhecer os investimentos, mas também compara anúncios com aquilo que enfrenta todos os dias.
E há uma questão ainda mais básica, quase elementar: água na torneira. Não há discurso político capaz de esconder a irritação de quem abre a torneira e não encontra água. O problema deixa de ser estatística, promessa ou planejamento de governo e passa a ser uma experiência diária. É a dona de casa, o trabalhador, o comerciante, a família inteira convivendo com a lata d’água, com a interrupção do abastecimento e com a sensação de que o Piauí da publicidade não corresponde ao Piauí da vida real.
Lula continua sendo um nome muito forte no Piauí. Ninguém questiona isso. A memória de 2022 ainda é poderosa, e o presidente sabe que o Estado pode representar uma importante reserva eleitoral. Mas eleição não se ganha apenas com memória, carisma ou fotografia de palanque. É preciso convencer o eleitor de que aquilo que foi prometido foi entregue e de que os problemas que persistem serão, finalmente, enfrentados.
Lula pode chegar a Teresina de braços abertos e ser recebido com festa pelo staff do Karnak. Rafael pode apresentar números favoráveis e posar ao lado do presidente como o candidato do time governista. Mas existe um terceiro personagem nessa história, silencioso e decisivo: o eleitor. Aquele que paga caro pelos alimentos, enfrenta a insegurança, procura emprego, sofre com serviços públicos deficientes e, em alguns lugares, simplesmente quer abrir a torneira e ter água.
A urna, afinal, é uma caixinha de surpresas. O povo dá, o povo toma. Lula pode receber o carinho de sempre, Rafael pode ter uma campanha poderosa e Joel Rodrigues pode encarnar a alternativa da oposição. Mas, no fim, será o cidadão comum quem decidirá se o passado pesa mais do que o presente. Carinho agora não significa necessariamente voto depois. E é justamente aí que pode estar a surpresa das urnas.
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