
“Alguma coisa. Alguma coisa. Em algum momento nós erramos.” Foi assim, entre hesitações, que o presidente Lula reagiu, durante um evento na Bahia, ao ser questionado sobre a alta rejeição do governador Jerônimo Rodrigues. A frase, aparentemente simples, revela uma preocupação muito maior: o PT começa a enfrentar dificuldades justamente em dois dos seus mais importantes redutos eleitorais do Nordeste.
Na Bahia, a situação de Jerônimo, que busca a reeleição, é particularmente delicada. Pesquisa Paraná Pesquisas, em parceria com o Bahia Notícias, aponta 41,9% de rejeição ao governador. ACM Neto aparece em segundo, com 28,6%. O levantamento foi realizado entre 23 e 25 de agosto, com 1.400 eleitores em 62 municípios.
No Ceará, o cenário também acende o sinal amarelo para o PT. Pesquisa Datafolha mostra 35% de rejeição ao governador Elmano de Freitas, contra 21% de Ciro Gomes. O levantamento foi realizado entre 10 e 13 de agosto e tem margem de erro de três pontos percentuais.
Mas não é apenas uma questão eleitoral. Bahia e Ceará convivem há anos com um problema que se tornou uma das maiores dores da população: a criminalidade. Facções criminosas ampliaram sua presença, disputam territórios, expulsam moradores e impõem uma rotina de medo em bairros, conjuntos habitacionais e comunidades inteiras.
Em algumas regiões, o poder paralelo passou a determinar quem pode permanecer em casa, quem pode circular e até quem pode morar em determinadas áreas. Distritos são esvaziados, famílias são expulsas e territórios passam a obedecer à lei das facções. É o Estado perdendo espaço justamente onde deveria exercer sua autoridade.
Na Bahia e no Ceará, portanto, a rejeição dos governadores não pode ser analisada apenas sob a ótica da disputa eleitoral. Segurança pública, saúde, serviços essenciais, economia e a percepção de eficiência do governo entram diretamente na conta. E quando o cidadão sente que o Estado não consegue protegê-lo, a insatisfação inevitavelmente chega às urnas.
É nesse contexto que a declaração de Lula ganha peso. “Em algum momento nós erramos.” Pode até ter sido uma resposta improvisada, mas traduz uma constatação política: alguma coisa precisa mudar. O problema é saber se o reconhecimento chegará acompanhado de uma mudança efetiva de rumo.
A situação também expõe um problema maior para o PT. Bahia e Ceará estão entre os principais Estados onde o partido construiu uma presença eleitoral sólida ao longo de mais de duas décadas. Perder força nesses dois territórios significaria muito mais do que perder duas eleições estaduais. Seria um sinal de desgaste de uma hegemonia construída durante anos.
E há ainda um terceiro personagem nessa equação: o próprio Lula. A rejeição do presidente também permanece elevada. Pesquisa Genial/Quaest citada no levantamento aponta que 51% dos brasileiros afirmaram que não votariam nele, índice que coloca a eleição presidencial diante de um cenário de forte polarização e disputa apertada.
Ou seja, Lula enfrenta um problema semelhante ao dos governadores que tenta sustentar politicamente. A rejeição virou uma variável central da eleição. E, quando ela se combina com problemas concretos, como criminalidade, insegurança, serviços públicos deficientes e dificuldades econômicas, pode transformar insatisfação em mudança eleitoral.
Por isso, a frase dita na Bahia pode acabar sendo mais importante do que parece. “Em algum momento nós erramos” é quase uma confissão política. A questão agora é identificar onde o erro aconteceu, quem será responsabilizado e, principalmente, se o eleitor acredita que o PT ainda é capaz de corrigi-lo.
Porque eleição não se ganha apenas apresentando propostas. Muitas vezes, perde-se por aquilo que o eleitor não quer mais. E, quando a rejeição chega a 41,9% na Bahia e 35% no Ceará, o recado das urnas começa a ser dado antes mesmo de elas serem abertas.
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