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Do contra filé ao porco: entenda a alta nos preços da carne em setembro

Inflação de alimentos e bebidas volta a subir após dois meses em queda

15/10/2024 às 09h00
Por: Wagner Albuquerque Fonte: Globo Rural
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Parece que o discurso de campanha sobre picanha para todos os brasileiros não passou de uma peça de teatro de político demagogo. Enquanto o presidente prometia churrascos fartos, a realidade que os consumidores enfrentam nos supermercados é bem diferente. As carnes, incluindo a tão sonhada picanha, estão subindo de preço em um ritmo alarmante, com algumas registrando aumentos de quase 4% em setembro.

Agora, ao invés de celebrarmos a promessa de um prato farto, assistimos à inflação corroendo o poder de compra dos brasileiros. A picanha, que subiu 0,12%, virou quase um artigo de luxo, deixando o discurso presidencial mais barato do que o próprio corte.

As carnes foram destaque na leitura de inflação de setembro, com alta de 2,97% nos preços, a maior desde 2020, quando subiram 3,58%. Para Carlos Thadeu, economista da BGC Liquidez, o cenário sinaliza uma piora na dinâmica do grupo alimentação nos próximos meses.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostra que o preço dos alimentos subiu 0,44% em setembro, após recuo de 0,02% em agosto. Esse comportamento ajudou o grupo alimentação no domicílio a sair de -0,73% para +0,56% na virada do mês.

Veja quais carnes ficaram mais caras em setembro

    Contra-filé: 3,79%
    Carne de porco: 3,67%
    Patinho: 3,15%
    Costela: 3,1%
    Pá: 3,04%
    Alcatra: 3,02%
    Acém: 2,96%
    Lagarto redondo: 2,72%
    Lagarto comum: 2,67%
    Filé-mignon: 2,47%
    Chã de dentro: 2,44%
    Peito: 2,21%
    Músculo: 1,56%
    Fígado: 0,83%
    Cupim: 0,46%
    Picanha: 0,12%

Por que o preço da carne subiu?

Para entender a alta no preço das gôndolas é preciso entender o que está acontecendo no campo. A junção de uma das maiores secas da história com uma demanda por carne bovina firme, tanto no mercado interno quanto no mercado externo, causou uma elevação nos preços do boi gordo.

No fim de setembro, a arroba do boi estava sendo negociada a R$ 300, segundo a Safras & Mercado, na comparação com R$ 215 no primeiro trimestre. Em pouco mais de um mês, o preço do boi gordo subiu cerca de 24%.

O analista Fernando Iglesias afirma que a seca reduziu a oferta de pastagens e elevou o custo de produção. E diante de tais condições, “a oferta de animais criados em sistema extensivo só deve se recuperar a partir de 2025”.

A BGC vê alta de 4% a 6% no valor das carnes em outubro. Para o ano cheio, a projeção é de 4,80%, na esteira dos choques de oferta ligados à forte estiagem no Brasil. Nesse sentido, mesmo o alívio esperado nos preços de combustível acabou saindo do radar, já que os preços do petróleo voltaram a subir em meio a tensões geopolíticas no Oriente Médio e o furacão no Golfo da Flórida.

Em relação a outros alimentos, as maiores altas foram registradas em frutas, como mamão (10,34%) e laranja-pera (10,02%). Ambas também subiram devido ao tempo quente e seco nas áreas produtoras.

Levantamento da Centro de Estudos em Economia Aplicado (Cepea) e divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontou o valor de R$ 5,17 o quilo para o mamão no Sul da Bahia na semana passada, 82% mais que na semana anterior. No Espírito Santo, a elevação foi de 95%.

Segundo colaboradores do Hortifrúti/Cepea, essa valorização é resultante do baixo volume colhido ainda em agosto, que foi acentuado pela queda da temperatura em algumas regiões, sobretudo nos períodos noturnos, que desacelerou a maturação do fruto e o segurou mais tempo no pé. Apesar disso, já em setembro a oferta da fruta tem aumentado e deve voltar à normalidade.

No caso da laranja, além do calor, que tem prejudicado a produção no campo, a cultura enfrenta o crescimento de uma doença chamada greening, que reduz o potencial produtivo das lavouras. Ao mesmo tempo, as elevadas temperaturas aquecem o consumo de laranja no mercado in natura.

Assim, os preços da laranja seguem em alta no atacado e deve ser repassados ao consumidor no próximo mês. Na semana encerrada em 4 de outubro, a média da laranja-pera na árvore alcançou R$ 121,94 a caixa, aumento de 2,53% em relação à semana anterior.

Vale lembrar, no caso das frutas que elas têm um peso muito pequeno na inflação geral e na vida do consumidor. Enquanto as carnes chegam a 2,3% do IPCA geral, as frutas todas não passam de 1,2%. A laranja fica com 0,0052% do total e o mamão, 0,1223%

Outro alimento com preços em elevação em setembro foi o café, com 4,02%. O grão também tem enfrentado problemas no desenvolvimento devido ao tempo seco. Analistas inclusive projetam que a próxima safra, 2025/26, será comprometida pela menor floração das árvores.

“Especula-se que o clima adverso pode prejudicar até a produção da safra em 2026. A seca prolongada e as altas temperaturas foram terríveis para a planta em termos de nutrição”, avalia Haroldo Bonfá, diretor da Pharos Consultoria. O café tem peso de 0,4345% no IPCA total.

Números positivos

Para Thadeu, BGC Liquidez , a leitura mais salgada das carnes deve ofuscar os números positivos da parte qualitativa do índice, como núcleos e inflação de serviços. Para o primeiro, a média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central desacelerou de 0,24% para 0,22% na margem. Já o segundo baixou de 0,24% para 0,15%.

“O mercado já havia absorvido a informação de que núcleos e serviços viriam mais baixos com o IPCA-15 de setembro, que foi afetado pelas promoções da semana do cinema. Já o grupo alimentação veio mais forte que o esperado. Enquanto a queda dos preços de cinema deve ser devolvida nos meses seguintes, a alta das carnes é algo que vai perdurar nos próximos meses”, diz o economista.

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