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Turismo bate recorde de estrangeiros, mas setor enfrenta crise silenciosa no Brasil

País recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, mas faturamento próximo ao de uma década atrás revela perda de força econômica, custos elevados, falta de mão de obra e ausência de uma estratégia capaz de transformar fluxo de visitantes em crescimento sustentável

09/08/2026 às 00h42
Por: Douglas Ferreira
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O país das contradições apresenta números contraditórios também no turismo - Foto: Reprodução
O país das contradições apresenta números contraditórios também no turismo - Foto: Reprodução

O turismo brasileiro vive uma contradição que merece mais atenção do governo e da sociedade. De um lado, o Brasil recebeu em 2025 um número recorde de turistas estrangeiros, aproximadamente 9,3 milhões. De outro, o desempenho financeiro do setor revela uma realidade muito menos exuberante. Segundo dados citados pela Revista Oeste a partir da Embratur, o faturamento do turismo deverá ficar próximo de R$ 200 bilhões, patamar nominal semelhante ao registrado nos melhores momentos do setor, entre 2013 e 2014. O problema é que uma comparação séria precisa considerar a inflação. Atualizado pelo IPCA, aquele resultado antigo representaria hoje mais que o dobro do faturamento registrado em 2025.

A matemática desmonta, portanto, a ideia de que o recorde de visitantes estrangeiros, isoladamente, significa que o turismo brasileiro esteja vivendo um novo ciclo de prosperidade. Há mais pessoas chegando ao País, mas isso não necessariamente significa que o setor esteja ganhando eficiência, rentabilidade e capacidade de investimento. O número de turistas pode bater recordes enquanto hotéis, restaurantes, operadores, agências e demais empresas enfrentam margens cada vez mais apertadas.

É exatamente essa contradição que chama atenção na avaliação de Márcio Lacerda, CEO do Grupo Hotelaria Brasil. Em entrevista à Oeste, o executivo afirma que o setor não está crescendo e que os hotéis estariam rendendo cada vez menos. Para Lacerda, existe uma sucessão de problemas estruturais que não estaria recebendo a atenção necessária do governo federal.

Difícil explicar o atual quadro do turismo no Brasil - Foto: Reprodução

O diagnóstico apresentado pela reportagem é particularmente preocupante porque o turismo possui peso relevante na economia nacional. Estimativas citadas pela Oeste apontam uma participação próxima de 8% do PIB e mais de 8,2 milhões de pessoas envolvidas em empregos diretos, indiretos e induzidos. Trata-se, portanto, de uma cadeia econômica que vai muito além de hotéis e agências de viagens. Envolve transporte, alimentação, comércio, cultura, entretenimento, construção civil, serviços e milhares de pequenos negócios espalhados pelo País.

O problema começa justamente na falta de uma estratégia de longo prazo. Na avaliação de Lacerda, o último grande plano estruturado para promover o Brasil internacionalmente teria sido o Plano Aquarela, lançado pela Embratur em 2003. Desde então, segundo o executivo, faltaria continuidade e visão estratégica para transformar o enorme potencial turístico brasileiro em uma indústria mais competitiva. A própria Embratur reconhece, em seu Plano Brasis 2025-2027, que o turismo já representa uma parcela estimada de 8% da economia brasileira e estabelece como objetivo ampliar essa participação.

Há ainda um problema particularmente grave para a hotelaria: o custo de operação. A atividade depende intensivamente de trabalhadores e enfrenta dificuldades para encontrar profissionais em diversas funções. Garçons, camareiras, auxiliares de serviços gerais e outros trabalhadores são essenciais para o funcionamento dos estabelecimentos. Ao mesmo tempo, hotéis pequenos e médios possuem menos capacidade financeira para elevar salários e competir por mão de obra em um mercado pressionado.

Outro ponto levantado na reportagem é a discussão em torno da escala de trabalho 6×1. Para representantes da hotelaria ouvidos pela Oeste, uma eventual elevação dos custos trabalhistas sem correspondente aumento de produtividade poderia atingir principalmente os estabelecimentos menores. O debate, contudo, precisa ser tratado com equilíbrio: melhorar as condições de trabalho e preservar a sustentabilidade das empresas são objetivos que não deveriam ser colocados como necessariamente incompatíveis. O desafio está em encontrar um modelo que não transforme o aumento dos custos em fechamento de hotéis e redução de empregos.

A tributação também aparece no centro da crise. Lacerda critica os efeitos que a reforma tributária poderá produzir sobre a cadeia turística, especialmente porque a hotelaria está próxima do consumidor final e possui pouca margem para absorver aumentos de custos. Segundo a avaliação apresentada à Oeste, a nova estrutura tributária poderá pressionar os preços e reduzir ainda mais a competitividade dos destinos brasileiros. A questão merece acompanhamento cuidadoso à medida que as novas regras forem regulamentadas e implementadas.

Outro desafio é a concorrência das plataformas de hospedagem de curta duração. Hotéis tradicionais argumentam que existe uma assimetria regulatória e tributária em relação aos imóveis ofertados por plataformas digitais. A disputa não é apenas comercial. Trata-se de definir até que ponto atividades que prestam serviços semelhantes devem estar submetidas às mesmas regras, impostos e obrigações. É uma discussão que exige regulamentação equilibrada, capaz de preservar a concorrência sem sufocar a inovação.

O mais preocupante, entretanto, é que o Brasil corre o risco de comemorar o número errado. Chegar a 9,3 milhões de visitantes internacionais é, evidentemente, uma conquista importante. Mas turismo não pode ser medido apenas pela quantidade de pessoas que atravessam a fronteira. O indicador decisivo é quanto esses visitantes gastam, quanto tempo permanecem, quantos empregos geram, quanto deixam na economia local e quanto estimulam novos investimentos.

O próprio recorde internacional precisa ser analisado em perspectiva. Em 2025, o Brasil registrou 9.287.196 chegadas internacionais, segundo os dados divulgados pelo governo, superando com folga o resultado de 2024. A receita de turistas estrangeiros também atingiu recorde em dólares. Isso demonstra que existe demanda internacional pelo País. O problema é transformar essa demanda em uma cadeia turística mais rentável, produtiva e capaz de crescer acima da inflação.

O Brasil tem aquilo que poucos países conseguem oferecer em escala semelhante: litoral extenso, patrimônio natural, diversidade cultural, gastronomia, clima, biodiversidade e destinos capazes de atender desde o turismo de negócios até o ecoturismo e o turismo de aventura. O que falta não é produto. Falta, em grande medida, transformar esse patrimônio em uma política econômica permanente.

A crise, portanto, não está na falta de turistas. Está na dificuldade de transformar visitantes em prosperidade. O recorde de 9,3 milhões pode ser celebrado, mas não deveria servir como cortina de fumaça para problemas de competitividade, infraestrutura, tributação, mão de obra, segurança, conectividade aérea e rentabilidade. Um setor que movimenta parcela tão expressiva da economia não pode depender apenas de números absolutos de visitantes para provar que está saudável.

O turismo brasileiro precisa deixar de ser tratado como atividade complementar e passar a ser encarado como uma indústria estratégica. O País não precisa apenas de mais turistas. Precisa de turistas que permaneçam mais tempo, gastem mais, conheçam mais destinos e encontrem uma infraestrutura compatível com o potencial brasileiro. Precisa também de empresas capazes de investir, trabalhadores qualificados, segurança, transporte eficiente e regras tributárias previsíveis.

O paradoxo está exposto: o Brasil pode comemorar o maior número de turistas estrangeiros de sua história e, ao mesmo tempo, continuar distante de seu melhor desempenho econômico real. Quando R$ 200 bilhões de hoje equivalem nominalmente a um resultado de uma década atrás, mas representam muito menos quando corrigidos pela inflação, o recorde deixa de ser apenas uma comemoração e passa a ser também um alerta.

O turismo brasileiro não está diante de um problema de potencial. Está diante de um problema de aproveita

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