
O turismo brasileiro vive uma contradição que merece mais atenção do governo e da sociedade. De um lado, o Brasil recebeu em 2025 um número recorde de turistas estrangeiros, aproximadamente 9,3 milhões. De outro, o desempenho financeiro do setor revela uma realidade muito menos exuberante. Segundo dados citados pela Revista Oeste a partir da Embratur, o faturamento do turismo deverá ficar próximo de R$ 200 bilhões, patamar nominal semelhante ao registrado nos melhores momentos do setor, entre 2013 e 2014. O problema é que uma comparação séria precisa considerar a inflação. Atualizado pelo IPCA, aquele resultado antigo representaria hoje mais que o dobro do faturamento registrado em 2025.
A matemática desmonta, portanto, a ideia de que o recorde de visitantes estrangeiros, isoladamente, significa que o turismo brasileiro esteja vivendo um novo ciclo de prosperidade. Há mais pessoas chegando ao País, mas isso não necessariamente significa que o setor esteja ganhando eficiência, rentabilidade e capacidade de investimento. O número de turistas pode bater recordes enquanto hotéis, restaurantes, operadores, agências e demais empresas enfrentam margens cada vez mais apertadas.
É exatamente essa contradição que chama atenção na avaliação de Márcio Lacerda, CEO do Grupo Hotelaria Brasil. Em entrevista à Oeste, o executivo afirma que o setor não está crescendo e que os hotéis estariam rendendo cada vez menos. Para Lacerda, existe uma sucessão de problemas estruturais que não estaria recebendo a atenção necessária do governo federal.
O diagnóstico apresentado pela reportagem é particularmente preocupante porque o turismo possui peso relevante na economia nacional. Estimativas citadas pela Oeste apontam uma participação próxima de 8% do PIB e mais de 8,2 milhões de pessoas envolvidas em empregos diretos, indiretos e induzidos. Trata-se, portanto, de uma cadeia econômica que vai muito além de hotéis e agências de viagens. Envolve transporte, alimentação, comércio, cultura, entretenimento, construção civil, serviços e milhares de pequenos negócios espalhados pelo País.
O problema começa justamente na falta de uma estratégia de longo prazo. Na avaliação de Lacerda, o último grande plano estruturado para promover o Brasil internacionalmente teria sido o Plano Aquarela, lançado pela Embratur em 2003. Desde então, segundo o executivo, faltaria continuidade e visão estratégica para transformar o enorme potencial turístico brasileiro em uma indústria mais competitiva. A própria Embratur reconhece, em seu Plano Brasis 2025-2027, que o turismo já representa uma parcela estimada de 8% da economia brasileira e estabelece como objetivo ampliar essa participação.
Há ainda um problema particularmente grave para a hotelaria: o custo de operação. A atividade depende intensivamente de trabalhadores e enfrenta dificuldades para encontrar profissionais em diversas funções. Garçons, camareiras, auxiliares de serviços gerais e outros trabalhadores são essenciais para o funcionamento dos estabelecimentos. Ao mesmo tempo, hotéis pequenos e médios possuem menos capacidade financeira para elevar salários e competir por mão de obra em um mercado pressionado.
Outro ponto levantado na reportagem é a discussão em torno da escala de trabalho 6×1. Para representantes da hotelaria ouvidos pela Oeste, uma eventual elevação dos custos trabalhistas sem correspondente aumento de produtividade poderia atingir principalmente os estabelecimentos menores. O debate, contudo, precisa ser tratado com equilíbrio: melhorar as condições de trabalho e preservar a sustentabilidade das empresas são objetivos que não deveriam ser colocados como necessariamente incompatíveis. O desafio está em encontrar um modelo que não transforme o aumento dos custos em fechamento de hotéis e redução de empregos.
A tributação também aparece no centro da crise. Lacerda critica os efeitos que a reforma tributária poderá produzir sobre a cadeia turística, especialmente porque a hotelaria está próxima do consumidor final e possui pouca margem para absorver aumentos de custos. Segundo a avaliação apresentada à Oeste, a nova estrutura tributária poderá pressionar os preços e reduzir ainda mais a competitividade dos destinos brasileiros. A questão merece acompanhamento cuidadoso à medida que as novas regras forem regulamentadas e implementadas.
Outro desafio é a concorrência das plataformas de hospedagem de curta duração. Hotéis tradicionais argumentam que existe uma assimetria regulatória e tributária em relação aos imóveis ofertados por plataformas digitais. A disputa não é apenas comercial. Trata-se de definir até que ponto atividades que prestam serviços semelhantes devem estar submetidas às mesmas regras, impostos e obrigações. É uma discussão que exige regulamentação equilibrada, capaz de preservar a concorrência sem sufocar a inovação.
O mais preocupante, entretanto, é que o Brasil corre o risco de comemorar o número errado. Chegar a 9,3 milhões de visitantes internacionais é, evidentemente, uma conquista importante. Mas turismo não pode ser medido apenas pela quantidade de pessoas que atravessam a fronteira. O indicador decisivo é quanto esses visitantes gastam, quanto tempo permanecem, quantos empregos geram, quanto deixam na economia local e quanto estimulam novos investimentos.
O próprio recorde internacional precisa ser analisado em perspectiva. Em 2025, o Brasil registrou 9.287.196 chegadas internacionais, segundo os dados divulgados pelo governo, superando com folga o resultado de 2024. A receita de turistas estrangeiros também atingiu recorde em dólares. Isso demonstra que existe demanda internacional pelo País. O problema é transformar essa demanda em uma cadeia turística mais rentável, produtiva e capaz de crescer acima da inflação.
O Brasil tem aquilo que poucos países conseguem oferecer em escala semelhante: litoral extenso, patrimônio natural, diversidade cultural, gastronomia, clima, biodiversidade e destinos capazes de atender desde o turismo de negócios até o ecoturismo e o turismo de aventura. O que falta não é produto. Falta, em grande medida, transformar esse patrimônio em uma política econômica permanente.
A crise, portanto, não está na falta de turistas. Está na dificuldade de transformar visitantes em prosperidade. O recorde de 9,3 milhões pode ser celebrado, mas não deveria servir como cortina de fumaça para problemas de competitividade, infraestrutura, tributação, mão de obra, segurança, conectividade aérea e rentabilidade. Um setor que movimenta parcela tão expressiva da economia não pode depender apenas de números absolutos de visitantes para provar que está saudável.
O turismo brasileiro precisa deixar de ser tratado como atividade complementar e passar a ser encarado como uma indústria estratégica. O País não precisa apenas de mais turistas. Precisa de turistas que permaneçam mais tempo, gastem mais, conheçam mais destinos e encontrem uma infraestrutura compatível com o potencial brasileiro. Precisa também de empresas capazes de investir, trabalhadores qualificados, segurança, transporte eficiente e regras tributárias previsíveis.
O paradoxo está exposto: o Brasil pode comemorar o maior número de turistas estrangeiros de sua história e, ao mesmo tempo, continuar distante de seu melhor desempenho econômico real. Quando R$ 200 bilhões de hoje equivalem nominalmente a um resultado de uma década atrás, mas representam muito menos quando corrigidos pela inflação, o recorde deixa de ser apenas uma comemoração e passa a ser também um alerta.
O turismo brasileiro não está diante de um problema de potencial. Está diante de um problema de aproveita
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