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Turismo REVITALIZAÇÃO URBANA

Manaus transforma gastronomia em estratégia para revitalizar o Centro

Projeto que requalifica a Ferreira Pena aposta em gastronomia, turismo, iluminação e ocupação urbana, uma experiência que pode inspirar Teresina e outras capitais nordestinas

05/09/2026 às 11h40
Por: Douglas Ferreira
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Manaus terá a primeira Rua Gastronômica como forma de revitalização do centro comercial - Foto: Reprodução
Manaus terá a primeira Rua Gastronômica como forma de revitalização do centro comercial - Foto: Reprodução

A revitalização dos centros comerciais e históricos das capitais brasileiras tornou-se um dos grandes desafios para gestores públicos em todo o País. Prédios abandonados, comércio enfraquecido, ruas pouco frequentadas à noite e problemas de segurança afastam moradores, consumidores e turistas. Mas, no coração da Amazônia, Manaus decidiu enfrentar o problema por outro caminho: transformar uma área que já possui vocação gastronômica em um novo polo de convivência, turismo e entretenimento.

A aposta está na Rua Ferreira Pena, no Centro Histórico, um trecho de aproximadamente 190 metros que será requalificado para se transformar na primeira rua gastronômica da capital amazonense. A inauguração está prevista para novembro e a Prefeitura de Manaus estima que o espaço possa receber cerca de 300 mil turistas por ano. A intervenção alcança 3.841 metros quadrados e foi pensada para dar estrutura, conforto e segurança a uma região que já possui bares, restaurantes e intensa movimentação noturna.

A grande sacada do projeto está justamente aí: Manaus não está tentando inventar uma vocação. Está organizando uma vocação que já existe. A Ferreira Pena já era frequentada, já havia atividade gastronômica e já havia vida noturna. Agora, a Prefeitura pretende transformar essa movimentação espontânea em um espaço urbano mais qualificado, mais atraente e com maior potencial turístico.

O projeto prevê a implantação de uma plataforma única, eliminando o desnível entre pista e calçada, além da substituição do asfalto por blocos intertravados e a utilização de pedra quartzito antiderrapante nas calçadas. O novo desenho também contempla bancos, floreiras e um varal de luminárias de LED, com atenção especial à iluminação noturna. As 15 árvores existentes no trecho serão preservadas.

É um conjunto de intervenções aparentemente simples, mas que revela uma compreensão importante sobre urbanismo: não basta abrir espaço para restaurantes. É preciso criar ambiente para as pessoas permanecerem. Iluminação, acessibilidade, paisagismo, mobiliário urbano, conforto e segurança fazem parte do mesmo projeto. Uma rua só se transforma em destino turístico quando o visitante se sente convidado a ficar.

E é justamente nesse ponto que a experiência de Manaus pode servir de inspiração para as capitais nordestinas. Teresina, por exemplo, precisa urgentemente discutir o futuro do seu Centro. Hoje, áreas importantes da região central enfrentam perda de atividade econômica, imóveis subutilizados, insegurança e redução do fluxo de pessoas, sobretudo fora do horário comercial.

Mas é preciso dizer com todas as letras: não adianta simplesmente criar uma “rua gastronômica” e imaginar que o problema estará resolvido. Não estará. Uma iniciativa desse tipo precisa estar inserida em uma política muito mais ampla de revitalização urbana. Sem segurança pública, iluminação eficiente, fiscalização, limpeza, mobilidade, estacionamento seguro e transporte adequado, o projeto corre o risco de virar apenas uma obra bonita, sem capacidade de transformar a realidade.

Também é fundamental criar incentivos para quem investe. Empreendedores, bares, restaurantes, hotéis, comércio e serviços precisam encontrar condições para ocupar novamente o Centro. Incentivos fiscais, simplificação de licenças, crédito, segurança jurídica e redução da burocracia podem ser tão importantes quanto o projeto arquitetônico.

O turismo também precisa entrar nessa equação. Manaus possui um patrimônio histórico extraordinário, diretamente ligado ao ciclo da borracha, e concentra alguns dos mais importantes símbolos culturais da Amazônia. O Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça e a Igreja de São Sebastião formam um circuito que pode ser potencializado quando gastronomia, cultura, comércio e entretenimento passam a funcionar como partes de uma mesma experiência.

O Centro Histórico de Manaus foi tombado pelo Iphan em 2012 e a cidade vem ampliando sua projeção turística justamente por combinar patrimônio, natureza e gastronomia. A transformação da Ferreira Pena, portanto, não é uma ação isolada. É uma tentativa de transformar o Centro em destino, e não apenas em passagem.

É essa mudança de mentalidade que outras capitais deveriam observar. Revitalizar um centro histórico não significa apenas restaurar fachadas ou construir calçadas novas. Significa devolver vida à cidade, trazer pessoas de volta, criar segurança, estimular negócios e transformar patrimônio em experiência.

Manaus está fazendo sua aposta. Resta saber quantos prefeitos terão coragem de olhar para seus próprios centros históricos e perguntar: qual é a vocação que já existe, mas ainda não recebeu a estrutura necessária para prosperar?

Para Teresina, essa pergunta é urgente. O Centro não precisa apenas de obras. Precisa de gente, investimento, segurança, cultura, gastronomia e turismo. Precisa voltar a ser um lugar onde as pessoas queiram estar.

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