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Educação do Piauí: entre os números que impressionam e a realidade que desafia

O Estado celebra um desempenho histórico no Ideb e se consolida entre os melhores do país. Mas, longe dos rankings, professores, estudantes e comunidades escolares afirmam que ainda existe um longo caminho para transformar indicadores em qualidade de ensino para todos

06/08/2026 às 08h26 Atualizada em 06/08/2026 às 08h49
Por: Douglas Ferreira
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Em solenidade no Karnak governador anuncia nota 5 no IDEB 2025 - Foto: Reprodução
Em solenidade no Karnak governador anuncia nota 5 no IDEB 2025 - Foto: Reprodução

O Piauí vive um momento inédito na educação pública. Pela primeira vez, alcançou nota 5 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e passou a ocupar a segunda colocação nacional, atrás apenas do Paraná. O Governo do Estado também comemora outros resultados expressivos: liderança nacional no ensino médio em tempo integral, universalização desse modelo na rede estadual, taxa de aprovação de 99,5%, crescimento da alfabetização na idade certa e destaque na conectividade das escolas. Os indicadores oficiais colocam o Estado entre as referências da educação pública brasileira.

Os números merecem reconhecimento. Eles são produzidos a partir de avaliações nacionais realizadas pelo Ministério da Educação e pelo Inep, seguindo metodologia pública e utilizada em todo o país. Não podem ser simplesmente ignorados.

Mas uma pergunta permanece inevitável.

Os excelentes indicadores retratam toda a realidade da educação piauiense?

Para quem percorre o interior do Estado, conversa com professores, diretores, pais e estudantes, a resposta parece ser mais complexa do que sugerem os rankings.

Há escolas modernas, completamente reformadas, climatizadas, equipadas com laboratórios, internet de alta velocidade e estrutura tecnológica de ponta. Essas unidades demonstram que os investimentos públicos podem produzir resultados concretos.

Ao mesmo tempo, persistem relatos de escolas que ainda enfrentam dificuldades estruturais, problemas de climatização, limitações de conectividade, carência de equipamentos e desafios para manter um ambiente adequado ao aprendizado. O próprio balanço oficial do Governo mostra que a expansão da climatização e da conectividade ainda está em curso, indicando que nem todas as unidades haviam alcançado o mesmo padrão de infraestrutura.

Essa diferença evidencia uma realidade conhecida por muitos educadores: o Piauí convive com verdadeiras "ilhas de excelência" ao lado de escolas que ainda aguardam investimentos para oferecer condições semelhantes.

Também não é novidade que sindicatos de professores e representantes da categoria fazem críticas às condições de trabalho, à infraestrutura de parte das unidades e aos desafios enfrentados no cotidiano escolar. Essas manifestações revelam que a percepção de quem vive a escola diariamente nem sempre coincide com o retrato apresentado pelos indicadores oficiais.

Isso não significa que os índices estejam errados.

Significa apenas que eles medem aspectos específicos da educação.

O Ideb avalia desempenho em Língua Portuguesa e Matemática, além do fluxo escolar. Não mede, por exemplo, o conforto térmico das salas, o funcionamento dos equipamentos, a disponibilidade de bibliotecas, laboratórios, quadras esportivas, transporte escolar ou as condições de trabalho dos profissionais.

Em outras palavras, uma rede pode evoluir significativamente nos indicadores e, ainda assim, conviver com problemas estruturais em parte de suas escolas.

É justamente por isso que a discussão não deve ser reduzida a uma disputa entre quem afirma que a educação do Piauí é excelente e quem sustenta que ela está em crise.

As duas afirmações, isoladamente, simplificam uma realidade muito mais complexa.

Os avanços existem e são reconhecidos nacionalmente.

Os desafios também existem e continuam sendo apontados por quem vive a rotina das escolas.

Talvez o maior mérito dos resultados alcançados seja mostrar que o Piauí encontrou políticas públicas capazes de melhorar indicadores importantes. O maior desafio, daqui para frente, será fazer com que essa qualidade percebida nas melhores escolas alcance todas as unidades da rede, independentemente de estarem em Teresina ou nos municípios mais distantes do interior.

A educação pública não pode ser avaliada apenas por rankings, nem apenas por denúncias.

Ela precisa ser julgada pelo conjunto da obra.

Quando um Estado alcança posições de destaque nacional, aumenta também sua responsabilidade. A sociedade passa a esperar que os bons resultados estatísticos sejam acompanhados por melhorias visíveis na infraestrutura, nas condições de trabalho dos professores e na aprendizagem efetiva dos estudantes.

O verdadeiro sucesso da educação piauiense não será apenas permanecer entre os primeiros colocados do Ideb.

Será fazer com que qualquer estudante, em qualquer município do Estado, encontre a mesma qualidade de ensino, a mesma estrutura e as mesmas oportunidades que hoje fazem do Piauí referência nos indicadores nacionais.

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