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No Ceará, a política parece disputar com o humor para ver quem produz as histórias mais inacreditáveis

Depois de Tiririca, do “capitão cueca” e agora do deputado que destina emendas para shows do artista do qual é empresário, o Ceará segue ampliando sua coleção de personagens folclóricos da política nacional

21/06/2026 às 10h37
Por: Douglas Ferreira
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Yure do Paredão, Tiririca e José Guimarães - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA
Yure do Paredão, Tiririca e José Guimarães - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA

O Ceará não tem se notabilizado apenas como um celeiro de grandes artistas, músicos e humoristas da melhor estirpe. Não. Na política também tem produzido personagens que desafiam a imaginação do brasileiro médio. E convenhamos: em certos momentos, fica difícil saber onde termina a comédia e começa a vida pública.

Basta lembrar de Tiririca. Eleito e reeleito deputado federal, tornou-se um fenômeno eleitoral nacional. Mas também entrou para a história por outro motivo: passou anos sem subir à tribuna para fazer um pronunciamento. O silêncio virou sua marca registrada. Até que, em 6 de dezembro de 2017, resolveu falar.

E quando falou, foi para dizer que seria sua "primeira e última vez" discursando no plenário.

"Subo nesta tribuna pela primeira vez e última vez. Não por morte. Porque estou abandonando a vida pública", declarou.

O discurso ganhou repercussão nacional. Afinal, após quase sete anos de mandato, aquela era sua primeira manifestação formal na tribuna da Câmara. O mais curioso é que a despedida não foi exatamente uma despedida. Depois da fala histórica, Tiririca voltou a disputar eleições e continuou na vida pública. A "última vez" acabou não sendo tão última assim.

Mas o Ceará também brindou a política nacional com outra figura lendária: José Guimarães, eternizado pelos adversários como o "deputado da cueca" ou o famoso "capitão cueca".

A origem do apelido remonta a 2005, quando a Polícia Federal prendeu, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, seu assessor José Adalberto Vieira da Silva. Com ele foram encontrados aproximadamente US$ 100 mil escondidos na cueca e cerca de R$ 200 mil transportados em uma mala.

O episódio ficou nacionalmente conhecido como o escândalo dos "dólares na cueca". Embora o dinheiro não estivesse com o deputado, a imagem política de Guimarães acabou inevitavelmente associada ao caso. Duas décadas depois, o apelido continua circulando nas redes sociais e nos debates políticos.

Mas quem imaginava que o Ceará já havia esgotado sua cota de personagens escalafobéticos estava redondamente enganado.

Surge agora mais um capítulo digno de entrar para a galeria das excentricidades políticas nacionais.

O protagonista da vez é o deputado federal Yury do Paredão. Segundo reportagem, emendas parlamentares por ele patrocinadas acabaram sendo utilizadas por prefeituras para contratar shows do cantor de forró Jonas Esticado.

Até aí, nada de extraordinário. O detalhe que chama atenção é outro: o deputado é sócio e empresário do artista.

Em outras palavras, municípios receberam recursos oriundos de emendas ligadas ao parlamentar e parte desse dinheiro foi utilizada para contratar apresentações de um cantor cuja empresa tem como sócios justamente Jonas Esticado e o próprio deputado.

Em Acopiara, Altaneira, Aurora, Mombaça e Farias Brito, o roteiro se repetiu. Cada apresentação teve cachê de R$ 300 mil.

Naturalmente, a situação despertou questionamentos.

O deputado nega qualquer irregularidade e afirma que não participa das decisões administrativas das prefeituras. Segundo ele, as emendas destinam recursos aos municípios, cabendo exclusivamente às gestões municipais a escolha das atrações artísticas e a contratação dos artistas.

"A execução dos convênios é de responsabilidade exclusiva dos municípios beneficiados", argumentou.

Do ponto de vista formal, a explicação está posta. Do ponto de vista político, porém, o debate continua aberto.

Porque o cidadão comum olha para a situação e faz a pergunta mais simples do mundo: como não estranhar quando o autor da emenda acaba sendo também empresário do artista contratado com recursos viabilizados por essa mesma emenda?

E assim o Ceará vai escrevendo mais um capítulo de sua rica contribuição à política nacional.

Entre humoristas que passam anos sem discursar, assessores flagrados com dólares na cueca e parlamentares que veem recursos públicos ajudarem a financiar shows de artistas dos quais são empresários, o estado parece determinado a provar que a realidade brasileira continua sendo muito mais criativa do que qualquer roteirista de ficção seria capaz de imaginar.

Eita cearázinho danado para produzir personagens que fazem o brasileiro rir, coçar a cabeça e perguntar se aquilo tudo aconteceu mesmo.

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