
Agora, a crise chegou ao coração do governo. E isso explica o nervosismo crescente nos corredores de Brasília. O clima no Planalto é de alerta máximo. Afinal, pela primeira vez, as investigações atingem diretamente o líder do governo no Senado, o senador Jaques Wagner, um dos aliados mais antigos e influentes do presidente Lula.
É como um elefante na antessala da Presidência: impossível ignorar.
A tentativa do Ministério da Justiça de trazer de volta delegados da Polícia Federal cedidos a outros órgãos, inclusive ao Supremo Tribunal Federal, foi recebida como uma bomba política. Nos bastidores, a medida foi interpretada por adversários do governo como uma movimentação inoportuna justamente quando investigações sensíveis avançam sobre o entorno do poder.
Foi tipo: um tiro no pé. O governo mostrou despero e descontrole.
A reação foi imediata. Ministros do STF, integrantes da Polícia Federal e entidades representativas da categoria manifestaram preocupação. O desgaste foi tão grande que o governo precisou recuar e manter os delegados que atuam nos gabinetes da Corte.
Foi assim: governo carimbou e na sequência descarimbou.
O problema é que o recuo não encerrou a crise. Pelo contrário. Para muitos observadores, a mudança de posição acabou reforçando a impressão de descoordenação política dentro do governo e alimentou novas especulações sobre os reais motivos da iniciativa.
É lógico que todos sabem. Mas, que quem se atreve a falar?
A oposição não perdeu tempo. Parlamentares passaram a associar a movimentação à tentativa de reduzir a influência de investigadores ligados a casos de grande repercussão, entre eles os desdobramentos do escândalo do Banco Master e das investigações sobre fraudes no INSS.
O fato é que a nona fase da Operação Compliance Zero elevou o nível da crise. Jaques Wagner passou a figurar no centro das atenções após a Polícia Federal apontar suspeitas envolvendo vantagens econômicas que estariam sendo investigadas no contexto das relações entre integrantes do grupo de Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao senador.
Na verdade não são só suspeitas. É muito mais que isso.
Embora Wagner negue qualquer irregularidade e afirme possuir total confiança do presidente Lula, a permanência dele na liderança do governo tornou-se tema de intenso debate político. Dentro e fora do Congresso, cresce a avaliação de que o cargo passou a representar um fator de desgaste para o Palácio do Planalto.
Desgaste é uma palavra moderada demais para traduzir a dimensão do estrago que já causou.
O próprio senador demonstrou disposição para resistir. Publicamente, afirmou que continuará exercendo a liderança do governo e que mantém sua pré-candidatura ao Senado. Também destacou o apoio recebido diretamente do presidente da República.
Há quem assegure que o Jacques Wagner excedeu na fala, uma vez que não estava autorizado pelo presidente Lula a revelar qualquer apoio.
Mas a pressão política aumenta a cada novo capítulo da investigação. Para a oposição, manter Wagner no posto transmite uma mensagem equivocada num momento em que o governo tenta sustentar o discurso de combate à corrupção e ao crime organizado.
O problema para o Planalto é que o Caso Master não produz apenas efeitos jurídicos. Produz, sobretudo, efeitos políticos. A cada nova revelação, cresce o risco de que o escândalo ultrapasse as páginas policiais e passe a ocupar espaço permanente no debate eleitoral.
Não resta dúvida de que é um prato cheio para a oposição. Até que surja um novo escândalo o caso Jacques Wagner permanece em cartaz.
Outro elemento que amplia o desconforto são as mensagens já divulgadas pela investigação, nas quais aparece a suposta proximidade entre integrantes do grupo de Daniel Vorcaro e figuras relevantes da política nacional. Esses episódios alimentam a disputa narrativa entre governo e oposição.
Nos bastidores de Brasília, ninguém ignora que o caso entrou numa fase decisiva. A investigação chegou ao líder do governo no Senado e colocou Lula diante de uma escolha difícil: preservar um aliado histórico ou reduzir o desgaste político provocado pela crise.
Não vai poder ficar em cima do muro. Dessa vez, não. É arriscoso.
Por enquanto, o governo tenta ganhar tempo. Mas o relógio político corre mais rápido que o judicial. E, em Brasília, todos sabem que crises desse tamanho raramente permanecem confinadas aos autos de uma investigação.
E o tempo urge. Tic, tac, tic, tac...
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