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Política ESQUERDISTA QUE NADA

Lula nunca foi esquerdista? O próprio Lula responde

Declaração feita durante conversa no G7 reacende um debate antigo: Lula mudou ao longo da vida política ou o próprio esquerdismo brasileiro se aproximou do centro e do mercado?

17/06/2026 às 16h10 Atualizada em 18/06/2026 às 09h55
Por: Douglas Ferreira
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Lula disse no G7, em Paris, que “nunca fui esquerdista” - Foto: Reprodução
Lula disse no G7, em Paris, que “nunca fui esquerdista” - Foto: Reprodução

Por esta nem a direita mais light esperava, nem a esquerda mais branca imaginava. Mas Lula falou e falou com todas as letras: "nunca fui esquerdista". Isso mesmo que você leu. Lula disse para líderes mundiais durante a cúpula do G7, na França, que nunca pertenceu à ala mais ideológica da esquerda. Também não afirmou ser de direita. Pelo contrário. Deixou transparecer que sempre se enxergou numa posição intermediária. Em suas palavras, o mundo não seria de esquerda nem de direita, mas "do meio".

Como assim "do meio"? Estaria Lula se referindo ao centro político? Ao chamado centrão? Evidentemente não da forma como o termo é utilizado no Brasil. O fato é que Lula sempre foi um personagem político difícil de enquadrar em definições ideológicas rígidas. Ao longo de sua trajetória, dialogou com sindicatos, empresários, banqueiros, movimentos sociais e líderes internacionais dos mais variados espectros políticos. Talvez por isso sua declaração tenha causado tanto espanto.

Agora, engana-se quem passou décadas acreditando que o metalúrgico de São Bernardo representava a tradução mais pura da esquerda brasileira. Não foram poucos os adversários e até antigos aliados que, ao longo dos anos, levantaram dúvidas sobre esse enquadramento. O ex-diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, por exemplo, costumava ironizar dizendo que Lula "de esquerda só tinha a mão que não era direita". A frase virou símbolo das críticas de quem sempre enxergou no petista muito mais pragmatismo do que ideologia.

Mas não foram apenas adversários que disseram isso. Dentro do próprio campo progressista, vozes importantes fizeram avaliações semelhantes. A ex-senadora Heloísa Helena, que rompeu com o PT, diversas vezes criticou o afastamento do partido das bandeiras históricas da esquerda. Já o ex-presidente uruguaio José Mujica, uma das figuras mais respeitadas da esquerda latino-americana, sempre representou um estilo de vida quase oposto ao exibido pelas elites políticas tradicionais, alimentando comparações inevitáveis com outros líderes da região.

E aí surge uma questão inevitável: que tipo de líder revolucionário se encaixa confortavelmente em uma rotina cercada de símbolos de luxo? Lula já foi fotografado usando relógios de marcas sofisticadas, ternos assinados por grifes internacionais, tênis avaliados em milhares de reais e frequentando ambientes incompatíveis com o imaginário clássico do líder operário revolucionário. Durante décadas, viajou em aeronaves particulares de empresários amigos quando estava fora do poder. Já na Presidência, dispõe da estrutura mais sofisticada de transporte aéreo do Estado brasileiro.

Seus críticos argumentam que Lula sempre viveu muito distante da austeridade normalmente associada a líderes de esquerda mais tradicionais. Seus apoiadores respondem que sucesso pessoal e conforto material não anulam compromissos sociais. O debate existe há décadas. O que mudou agora é que o próprio Lula resolveu entrar nele de maneira direta.

E não foi um opositor quem fez a acusação. Não foi um bolsonarista. Não foi um liberal. Não foi um adversário histórico do PT. Foi o próprio Lula quem verbalizou algo que muitos diziam há anos. Diante da diretora-geral do FMI e do chanceler alemão, declarou sem rodeios: "Mas eu nunca fui esquerdista."

A frase abre espaço para uma reflexão ainda maior. Afinal, quem mudou? Foi Lula que abandonou posições ideológicas mais radicais ao longo do tempo? Ou foi a própria esquerda mundial que se transformou, aproximando-se cada vez mais da economia de mercado, das instituições financeiras globais e dos mecanismos do capitalismo contemporâneo? A pergunta não é trivial. Talvez a resposta esteja justamente no sucesso eleitoral de Lula ao longo das últimas décadas.

De toda forma, a declaração produz um efeito político inevitável. Ela desmonta uma narrativa construída tanto por admiradores quanto por adversários. Para uns, Lula sempre foi o grande símbolo da esquerda latino-americana. Para outros, o maior representante do socialismo brasileiro. Agora, o próprio presidente apresenta uma versão diferente de sua trajetória. E quando a frase parte do principal personagem da história, o debate ganha uma nova dimensão.

Agora se ainda resta alguma dúvida, confira você mesmo:

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