
Há uma característica comum às grandes democracias do mundo: o chefe do Poder Executivo precisa manter diálogo permanente com o Poder Legislativo. Não se trata apenas de uma questão política. É uma necessidade institucional.
Presidentes governam, mas dependem do Congresso para aprovar projetos, reformas, orçamentos e políticas públicas. Por isso, reuniões com deputados, senadores, líderes partidários e presidentes de comissões sempre fizeram parte da rotina do Palácio do Planalto.
Foi assim nos governos de Fernando Henrique Cardoso, de Jair Bolsonaro e também nos dois primeiros mandatos de Lula.
Mas algo parece ter mudado no terceiro mandato do presidente petista.
Os registros oficiais mostram que, ao longo de 2025, Lula praticamente desapareceu da agenda dos parlamentares. Até agora, não há registro de audiências privadas com deputados federais ou senadores. Nem líderes partidários. Nem líderes do governo. Nem presidentes de comissões. Nem mesmo os parlamentares responsáveis pela sustentação política do próprio governo.
O dado chama atenção porque o isolamento não é apenas deste ano.
Em 2024, a situação já havia despertado estranheza. Durante todo o ano, apenas um parlamentar apareceu oficialmente em audiência reservada com Lula: a senadora Leila Barros.
A comparação histórica torna o fenômeno ainda mais curioso.
Em 2023, primeiro ano do atual mandato, Lula recebeu deputados em 17 oportunidades e senadores em outras oito reuniões oficiais. Em 2024, esse número despencou. Em 2025, praticamente desapareceu.
A pergunta surge naturalmente: o que aconteceu?
O presidente mudou sua forma de fazer política?
Perdeu interesse no contato direto com o Congresso?
Ou considera que a articulação pode ser conduzida exclusivamente por ministros e líderes governistas?
O Palácio do Planalto costuma atribuir a interlocução política ao ministro das Relações Institucionais e às lideranças do governo no Congresso. Na prática, a justificativa é que o relacionamento institucional continua existindo, mesmo sem encontros frequentes do presidente com parlamentares.
Mas a explicação não parece ter convencido parte da base governista.
Nos bastidores, deputados e senadores reclamam da dificuldade crescente de acesso ao presidente. Muitos afirmam que pedidos de audiência permanecem sem resposta por meses.
E é justamente nesse contexto que outro fato desperta curiosidade.
Enquanto parlamentares relatam dificuldades para chegar ao gabinete presidencial, vieram a público informações sobre encontros de Lula com o empresário e banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, alguns deles sem constarem na agenda oficial.
Não há ilegalidade em reuniões privadas entre o presidente e empresários. Tampouco existe qualquer prova de irregularidade nesses encontros.
Mas politicamente a comparação é inevitável.
Se deputados, senadores e líderes partidários reclamam da falta de espaço na agenda presidencial, a frequência de encontros com figuras do setor privado acaba produzindo desconforto e alimentando questionamentos.
O mal-estar cresce principalmente entre parlamentares da própria base, que esperam maior proximidade do chefe do Executivo.
Afinal, política é também presença.
É conversa.
É escuta.
É construção de confiança.
Historicamente, Lula sempre foi reconhecido justamente por essa habilidade. Durante décadas, construiu sua imagem política como um líder acessível, capaz de dialogar com diferentes setores e manter canais permanentes de negociação.
Por isso mesmo, o contraste atual chama atenção.
Talvez não seja exagero dizer que muitos parlamentares sentem falta do chamado "Lula articulador", aquele que cultivava relações pessoais com aliados e adversários.
Por enquanto, o governo sustenta que a governabilidade permanece preservada.
Mas a política tem uma regra simples: espaços vazios raramente permanecem vazios por muito tempo.
Quando o presidente se afasta do Congresso, alguém inevitavelmente ocupa esse espaço.
E essa pode ser uma das explicações para o crescente protagonismo de presidentes de Câmara, Senado e lideranças partidárias nas grandes decisões nacionais.
A dúvida que permanece é se estamos diante apenas de uma mudança de estilo administrativo ou de um novo modelo de governança que reduz deliberadamente o contato direto entre o presidente e o Parlamento.
A resposta talvez apareça nas próximas votações importantes.
Porque, no fim das contas, nenhum governo consegue governar sozinho.
E nenhuma democracia funciona plenamente sem diálogo constante entre seus Poderes.
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