
Alguma coisa está profundamente errada no Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. E não é de hoje. O mesmo órgão que virou símbolo de um dos maiores escândalos do governo Lula 3, com uma quadrilha instalada dentro e no entorno da estrutura que sangrou aposentados e pensionistas em mais de R$ 6,3 bilhões, agora parece mirar justamente quem mais precisa de proteção.
Milhões de velhinhos e velhinhas tiveram descontos indevidos em seus contracheques. Foram mais de 6 milhões de beneficiários atingidos por uma verdadeira gatunagem institucionalizada. E enquanto os poderosos discutem responsabilidade, investigações e acordos em Brasília, brasileiros vulneráveis seguem sendo esmagados pela máquina burocrática do Estado.
É o caso de Luzia Pereira da Silva, conhecida em Castelo do Piauí como Luzinária Play. Deficiente visual de nascença, ela tem 32 anos, cria duas filhas sozinha e dependia do Benefício de Prestação Continuada, o BPC Loas, no valor de um salário mínimo, recebido desde 1999.
Só que, agora, o benefício foi suspenso.
E o motivo chega a soar ofensivo. Luzinária precisaria passar novamente por perícia médica e avaliação social para comprovar que continua cega. Sim, uma mulher que nasceu sem enxergar precisaria provar ao Estado que ainda não voltou a ver.
A exigência não é apenas absurda. É humilhante.
Mesmo diante disso, ela tentou seguir todos os caminhos impostos pelo sistema. Procurou a agência do INSS em Campo Maior e recebeu a orientação de realizar os procedimentos obrigatórios. O problema é que, hoje, quase tudo depende do sistema on-line do INSS. E aí começa outra via-sacra.
O acesso trava. O sistema falha. Horas são perdidas tentando atendimento. O cidadão pobre, vulnerável e muitas vezes sem acesso adequado à internet simplesmente fica perdido dentro de um labirinto digital criado por quem jamais dependeu dele para sobreviver.
Ainda assim, Luzinária conseguiu marcar a perícia médica para o dia 22 de agosto deste ano. Já a avaliação social, exigida pelo próprio INSS, sequer conseguiu agendar.
E foi exatamente nesse intervalo que veio o golpe mais duro: o benefício foi suspenso.
Abril chegou sem pagamento. O INSS alegou ausência da perícia social. E pronto. Cortou o único sustento de uma mãe cega que depende integralmente do recurso para alimentar as filhas e manter a própria sobrevivência.
O mais revoltante é perceber a inversão completa das prioridades. Quando bilhões desapareceram dos aposentados, o sistema falhou vergonhosamente em proteger os beneficiários. Mas, para cortar o benefício de uma mulher vulnerável, o mecanismo parece funcionar com assustadora eficiência.
São situações assim que corroem a confiança da população nas instituições.
Como pode um órgão criado justamente para proteger os mais frágeis permitir esquemas bilionários e, ao mesmo tempo, suspender o benefício de quem já nasceu em condição de extrema vulnerabilidade?
E Luzinária sabe que não está sozinha.
Segundo ela, em municípios como Luzilândia e em várias cidades do Piauí, dezenas de pessoas enfrentam dramas semelhantes. Benefícios suspensos, perícias demoradas, avaliações travadas e famílias inteiras vivendo sob a angústia da incerteza.
Hoje, difícil mesmo é encontrar uma cidade piauiense onde alguém não conheça uma pessoa que teve algum benefício bloqueado ou cancelado pelo INSS.
Ainda assim, mesmo diante da burocracia, da humilhação e do abandono, Luzinária Play não perdeu a esperança.
“Sim. Eu sei que vou conseguir. E vou lutar por isso. O meu benefício não é um privilégio, é um direito”.
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