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Internacional ALÉM DA SUPERFÍCIE

Entre o preço e o valor: mergulhar

Dom João era muito amigo de Celso José!

16/04/2026 às 18h14 Atualizada em 16/04/2026 às 18h24
Por: Josenildo Melo
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Foto: https://dicasdenatalepipa.com.br/
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Não faz muito tempo, um amigo meu, que ama filosofar, enquanto contemplava o mar, enviou-me uma reflexão que me tocou profundamente. Há quem olhe o mar apenas como convite ao mergulho ou ao descanso; o filósofo, porém, contempla e interroga. Ele vê mais do que ondas: percebe mistério, profundidade, sentido. E foi justamente assim que nasceu sua meditação sobre o que tem preço e o que tem valor.

Permito-me retomá-la quase literalmente: metaforicamente, o preço é como a superfície do mar — visível, mensurável, exposta às variações do tempo e do mercado. O valor, porém, habita as profundezas do oceano: silencioso, invisível aos olhos apressados; mas é ali que repousa a verdadeira riqueza. Quem vive apenas na superfície aprende a calcular; quem tem coragem de mergulhar aprende a compreender.

E, como ele mesmo intuiu com propriedade, são justamente as pequenas coisas — um bilhete escrito à mão, uma palavra dita no momento certo, um abraço que se prolonga, um silêncio que respeita — que revelam essa profundidade. Essas quase nunca têm preço, porque não pertencem à lógica da troca, mas à gratuidade do encontro. São gestos simples, por vezes imperceptíveis no ritmo acelerado do cotidiano; contudo, quando partilhados com pessoas que fazem diferença em nossa vida, tornam-se verdadeiros tesouros — não por serem raros, mas por serem autênticos.

O valor nasce da partilha. Um sorriso isolado é apenas um gesto; partilhado, torna-se encontro. Um tempo reservado na agenda é um simples intervalo; oferecido a alguém, transforma-se em cuidado. A pequena presença converte-se em grande significado quando há vínculo. É na relação que o simples se transfigura e adquire densidade de eternidade.

Há coisas que podemos comprar; há outras que só podemos cultivar. A confiança não se adquire: constrói-se. A amizade não se negocia: fortalece-se. O amor não se impõe: oferece-se. Essas realidades não têm preço, porque não são mercadorias, mas experiências que nos moldam por dentro. No fim, compreendemos: o que tem preço ocupa espaço; o que tem valor ocupa lugar no coração. O preço pode ser substituído; o valor, jamais. E são justamente essas pequenas coisas, aparentemente modestas e quase invisíveis, que, quando partilhadas com pessoas que iluminam a nossa caminhada, revelam a verdadeira grandeza da vida.

Essa distinção, tão simples e tão verdadeira, encontra eco na reflexão de Georg Simmel em A Filosofia do Dinheiro. Para ele, o dinheiro tem a capacidade de traduzir tudo em uma linguagem comum, tornando comparáveis realidades que, em si mesmas, são incomensuráveis. Assim, aquilo que antes pertencia ao campo da experiência — como o amor, a honra ou a amizade — pode ser reduzido a uma medida quantitativa. Mas essa redução tem um preço: ela simplifica o que, por natureza, é profundo.

Simmel observa que o valor nasce da distância: valorizamos aquilo que não está imediatamente disponível, aquilo que exige esforço, tempo e entrega. Curiosamente, é exatamente isso que o meu amigo intuiu ao falar das pequenas coisas. Um bilhete escrito à mão, um sorriso, um abraço, um silêncio respeitoso — nada disso tem preço. E, justamente por isso, tem valor. Não são raros por serem escassos, mas por serem autênticos.

No entanto, há uma ambiguidade que não podemos ignorar. O dinheiro, diz Simmel, amplia a liberdade humana: liberta o indivíduo de obrigações concretas e permite maior autonomia na condução da própria vida. Mas, ao mesmo tempo, torna as relações mais impessoais, dissolvendo vínculos, enfraquecendo a densidade do encontro humano. O que se ganha em liberdade, corre-se o risco de perder em profundidade.

A metáfora entre preço e valor revela rara beleza e profundidade. Nela há densidade filosófica e sensibilidade poética. São palavras que não apenas provocam o pensamento, mas tocam a alma e nos convidam a ir além das aparências. Vivemos, muitas vezes, presos ao que se calcula, esquecendo-nos de cultivar o que realmente importa. São os vínculos, a presença e a partilha sincera que conferem sentido à vida, transformando gestos simples em eternidade guardada no coração. O simples se transfigura quando há vínculo; é na relação que a vida encontra seu verdadeiro significado. Talvez o grande desafio do nosso tempo seja este: não permanecer na superfície, mas aprender a mergulhar e ser profundo.

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

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Sobre Josenildo Nascimento Melo é jornalista, estudou direito, é Bacharel em Serviço Social pelo ICF - Instituto Camillo Filho. É também licenciado em Filosofia pelo ICESPI - Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí.
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