
No Piauí, dirigir para aplicativo deixou de ser apenas uma forma de sustento. Para muitos, virou uma atividade cercada por medo constante, quase uma roleta russa diária. Pode parecer exagero dizer que se tornou “profissão suicídio”, mas é exatamente esse o sentimento que toma conta de motoristas, em todo o Estado. E sentimento coletivo, quando se repete, deixa de ser exagero e passa a ser sintoma.
O trabalhador sai de casa sem garantia de retorno. Não sabe se o passageiro é cliente ou ameaça, se a corrida termina em pagamento ou violência ou morte. A cada trajeto, uma aposta silenciosa. A cada parada, uma incerteza. A rotina virou um campo minado sobre quatro rodas.
Os números confirmam o que a categoria já sente na pele. Entre 2024 e abril de 2026, foram mais de 1.100 ocorrências envolvendo motoristas por aplicativo no Estado. Em 2026, a média é brutalmente simbólica. A cada 24 horas, um motorista é vítima de crime. É como se o relógio da violência tivesse escolhido essa categoria para marcar o tempo.
E não se trata apenas de assaltos. Os relatos são cada vez mais graves. Motoristas colocados no porta-malas, obrigados a assistir ao próprio carro ser usado em outros crimes, vivendo um terror que transforma minutos em eternidade. E, nos casos mais extremos, a violência evolui para o desfecho mais cruel.
O assassinato de Francisco Alan Marques da Silva, de 27 anos, escancara essa realidade. Desaparecido por dias, foi encontrado morto, enterrado em uma cova rasa na zona rural de Altos. Um jovem trabalhador que saiu para rodar e não voltou. A brutalidade do caso não é um ponto fora da curva. É o ápice de uma escalada.
Diante disso, a pergunta se impõe com força crescente. Onde está a segurança pública? Por que uma categoria inteira trabalha sob permanente estado de alerta sem resposta proporcional do Estado?
A política de segurança enfrenta críticas não apenas pela existência dos crimes, mas pela sensação de ausência de estratégia específica. Motoristas por aplicativo não são um grupo qualquer. São profissionais expostos, móveis, que lidam com desconhecidos em ambientes variados e horários críticos. Ignorar essa particularidade é tratar um problema específico como se fosse genérico.
A cobrança por medidas concretas cresce. A instalação de botões de pânico nos veículos, já adotada em outros Estados, é uma das principais reivindicações. A lógica é simples. Se o risco é imediato, a resposta também precisa ser. Mas até agora, a promessa não saiu do papel com a velocidade que a urgência exige.
Há ainda um agravante que amplia o caos. A presença de criminosos infiltrados nas próprias plataformas, utilizando perfis falsos. O sistema que deveria garantir segurança se torna, em alguns casos, ferramenta para o crime. Isso cria um ambiente de desconfiança total, onde motorista teme passageiro e passageiro teme motorista.
O resultado é uma atividade marcada pelo medo bilateral. Uma relação que deveria ser baseada em confiança passa a operar sob suspeita.
Mesmo com uma leve redução percentual nos registros entre 2024 e 2025, a sensação de insegurança permanece alta. E isso revela algo importante. Estatística não é percepção. E, nesse caso, a percepção continua sendo de risco extremo.
O problema, portanto, não é apenas numérico. É estrutural. Exige inteligência, tecnologia, integração entre plataformas e forças de segurança, além de vontade política para tratar o tema como prioridade.
Enquanto isso não acontece, a realidade segue implacável. No Piauí, motoristas por aplicativo continuam saindo para trabalhar com a mesma dúvida que ninguém deveria ter ao iniciar o dia. Volto para casa hoje ou não?
ARENA DAS DUNAS Evento de Janja termina com deputada do PT ferida e expõe contradição no discurso da esquerda
FEMINICÍDIO Mulher é encontrada sem vida com faca cravada no rosto; caso choca Teresina
VOX BRASIL “PTMaster” amplia desgaste, pressiona pré-campanha de Lula cai na pesquisa Mín. 23° Máx. 32°