
O governo Lula 3 parece ter finalmente despertado de um longo transe de autoconfiança para mergulhar, com atraso evidente, no conhecido modo “jus esperniandi”. A reação existe, é visível, mas carrega o peso de quem percebe o problema quando o casco já cedeu e a água invade o porão. Não se trata mais de ajuste de rota. Trata-se de evitar o naufrágio.
Durante meses, o governo navegou como se estivesse em mar calmo, ignorando sinais cada vez mais claros de desgaste. As pesquisas de opinião não apenas indicam queda de popularidade, mas revelam algo mais profundo: perda de credibilidade e aumento consistente da rejeição. Não é marola. É correnteza contrária.
O problema é estrutural. A administração pública não tem correspondido às demandas mais básicas da população. Entrega pouco, quando entrega. A carestia pressiona o cotidiano, a inflação corrói o poder de compra, os juros elevados travam a economia e o desemprego insiste em rondar. O resultado é previsível. A mesa do trabalhador encolhe enquanto o discurso oficial permanece inflado.
Como se não bastasse, o cenário se agrava com o descontrole no preço dos combustíveis e uma escalada da violência que já não se limita a territórios periféricos. O crime organizado avança como mancha de óleo, ocupando espaços urbanos inteiros, das grandes capitais às cidades médias e pequenas. O Estado, nesse contexto, parece mais espectador do que protagonista.
No campo político, os ruídos se transformam em escândalos. Episódios envolvendo o Banco Master, suspeitas que atingem figuras próximas ao poder e o rombo no INSS ampliam a sensação de desorganização. A percepção pública é de um governo que tenta apagar incêndios enquanto novos focos surgem em sequência.
E então vem a resposta. A demissão do presidente do INSS, Gilberto Waller. Um movimento que, à primeira vista, sugere ação, mas que, na prática, levanta uma pergunta inevitável. Trocar o comando resolve ou apenas muda a narrativa?
O INSS hoje simboliza um problema muito maior do que uma gestão específica. A fila de mais de três milhões de pedidos represados não é apenas um número. É o retrato de um sistema congestionado, burocrático e vulnerável a interferências políticas. É gente esperando por direitos básicos enquanto a máquina patina.
A nomeação de uma servidora de carreira, Ana Cristina Viana Silveira, surge com a missão de reduzir essa fila e reorganizar o instituto. O currículo é técnico. A intenção, em tese, é correta. Mas o desafio não é apenas administrativo. É estrutural.
Mudar o presidente do INSS, nesse contexto, se assemelha a trocar o motorista de um veículo com o motor comprometido. Pode melhorar a condução, mas não resolve o defeito central. Sem reformas profundas, sem enfrentamento real das distorções e sem vontade política consistente, o risco é de que a engrenagem continue girando em falso.
O problema do INSS não nasceu ontem. Ele é resultado de anos de sobreposição de interesses, decisões equivocadas e fragilidades institucionais. Falar em solução exige mais do que substituições pontuais. Exige uma espécie de descontaminação do sistema, um processo de reorganização que vá além da superfície.
O governo, ao agir agora, tenta demonstrar controle. Mas a impressão que fica é outra. A de que a reação veio tarde demais, quando os sintomas já são visíveis demais para serem ignorados.
No fim, a pergunta permanece no ar, incômoda e persistente. Trata-se de uma mudança real ou apenas de mais um movimento para ganhar tempo enquanto a crise continua avançando?
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