
O combate ao tráfico de drogas no Brasil costuma produzir números impressionantes. A cada grande operação surgem toneladas apreendidas, armas recolhidas e esconderijos descobertos. Mas, de tempos em tempos, aparece uma ocorrência que parece sair de outra escala. Algo comparável a encontrar um oceano onde se imaginava apenas uma poça.
Foi o que aconteceu no Complexo da Maré. Em uma operação realizada na comunidade da Nova Holanda, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro encontrou quase 50 toneladas de maconha, a maior apreensão da história da corporação no país.
A descoberta não começou com uma denúncia anônima, nem com uma investigação sofisticada digna de filme policial. Começou com algo mais simples e, ao mesmo tempo, extraordinário. O faro de um cão.
O protagonista dessa história atende pelo nome de Huck, um pastor-belga-malinois de cinco anos treinado no Batalhão de Ações com Cães.
Durante patrulhamento de rotina na terça-feira, equipes da polícia circulavam pela comunidade quando passaram diante de um galpão que não despertava qualquer suspeita. O lugar parecia tão banal quanto um depósito esquecido em zona industrial. Algo que passaria despercebido aos olhos humanos.
Mas para o faro de um cão treinado, banalidade é apenas uma aparência.
Foi nesse momento que Huck começou a insistir em um ponto específico do galpão. O comportamento chamou atenção dos policiais, que decidiram iniciar uma busca mais detalhada.
O que parecia apenas mais um prédio sem importância revelou-se uma espécie de cofre subterrâneo do tráfico.
Durante a varredura, os policiais encontraram uma cisterna aparentemente desativada. A estrutura estava concretada, como se fosse apenas um vestígio de obra antiga. Um detalhe banal no cenário urbano.
Mas o faro do cão indicava outra coisa.
Quando a estrutura foi quebrada, surgiu o que parecia mais um capítulo de manual do crime organizado. Um bunker improvisado escondia mais de 24 mil tabletes de maconha, cada um pesando cerca de dois quilos.
No total, aproximadamente 48 toneladas da droga estavam guardadas ali.
A imagem lembra aquelas cenas em que arqueólogos descobrem tesouros enterrados sob a areia. A diferença é que, neste caso, o tesouro era um gigantesco estoque de entorpecentes pronto para abastecer o mercado ilegal.
Segundo a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o local funcionava como um ponto estratégico de distribuição ligado ao Comando Vermelho.
A hipótese é que a droga seria enviada para diferentes áreas dominadas pela facção.
Em termos de mercado ilegal, o que estava ali escondido equivalia a um verdadeiro entreposto logístico do tráfico. Algo comparável a um centro de distribuição clandestino.
Se toda essa maconha fosse transformada em cigarros da erva, a quantidade ultrapassaria 15 milhões de unidades.
A ação mobilizou cerca de 250 policiais militares, com participação de diversas unidades especializadas. Entre elas estavam o Batalhão de Ações com Cães, o Batalhão de Choque e o Batalhão de Operações Policiais Especiais.
Blindados, aeronaves e seis cães farejadores participaram da operação.
Durante a retirada do material, criminosos abriram fogo contra os policiais. Houve confronto e um homem foi encontrado ferido portando um fuzil. Ele foi levado ao hospital sob custódia.
Além das toneladas de maconha, foram apreendidos cinco fuzis, pistolas e 26 veículos roubados.
Para transportar todo o material apreendido, foram necessários quatro caminhões completamente carregados.
A retirada começou por volta das 13 horas e só terminou durante a madrugada.
A contagem das drogas levou horas e só foi concluída por volta das três da manhã. O volume era tão grande que parecia mais uma operação de carga portuária do que uma apreensão policial.
No centro dessa história permanece a figura de Huck.
Treinado para detectar drogas em qualquer ambiente, o cão conseguiu identificar o odor mesmo com a droga escondida sob concreto.
Segundo os especialistas do Batalhão de Ações com Cães, o treinamento permite que o animal detecte substâncias enterradas, submersas ou escondidas em estruturas fechadas.
Em outras palavras, enquanto olhos humanos veem paredes e concreto, o faro de um cão vê cheiro.
A apreensão recorde também revela algo maior que o feito policial. Mostra o tamanho da engrenagem do tráfico no Brasil.
Quando uma única operação encontra quase cinquenta toneladas de droga escondidas em um galpão dentro de uma comunidade, a pergunta inevitável surge como um trovão.
Se isso era apenas um depósito, quantos outros depósitos ainda existem?
A resposta, como muitas coisas no universo do crime organizado, continua enterrada em algum lugar entre o concreto das cidades e o silêncio das madrugadas.
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