
A morte da advogada criminalista Letícia dos Santos Sousa, aos 30 anos, interrompeu de forma abrupta uma trajetória profissional que ainda estava em plena ascensão. A jovem jurista morreu após sofrer crises convulsivas dentro do condomínio onde morava, em Teresina, deixando colegas, alunos e amigos diante de um silêncio difícil de explicar. No mundo do direito criminal, onde as disputas são intensas e a pressão emocional lembra muitas vezes uma arena romana, Letícia se destacava como uma voz firme, articulada e surpreendentemente madura para alguém tão jovem.
Letícia fazia parte de uma nova geração de advogados criminalistas que tratavam o Tribunal do Júri não apenas como um espaço técnico, mas também como um palco de narrativa humana. Nos julgamentos, onde promotores e defensores disputam a convicção dos jurados palavra por palavra, ela atuava com uma mistura rara de técnica jurídica e sensibilidade social. Colegas costumavam dizer que sua fala no plenário tinha a cadência de quem sabia que, naquele espaço, uma frase bem construída pode pesar tanto quanto uma prova material.
Sua atuação no Tribunal do Júri chamava atenção pela clareza argumentativa. Enquanto alguns advogados recorrem ao excesso de teatralidade, Letícia seguia caminho diferente. Seu estilo lembrava o de um cirurgião que prefere precisão a espetáculo. Em vez de discursos inflamados sem direção, ela organizava as teses defensivas com lógica quase acadêmica, desmontando acusações ponto a ponto. Para os jurados, isso muitas vezes funcionava como um mapa em meio ao labirinto processual.
Registros judiciais mostram sua participação em processos criminais relevantes, inclusive em ações penais que tramitavam nas varas do Tribunal do Júri da capital piauiense. Em um dos casos, por exemplo, ela atuou como advogada em habeas corpus no Tribunal de Justiça do Piauí, integrando a defesa de investigados em processos criminais complexos. Essas atuações demonstram que sua presença nos tribunais não era periférica. Ela já ocupava espaço em processos delicados, nos quais cada decisão pode alterar o destino de uma vida.
Dentro da advocacia criminal, Letícia também era conhecida por enfrentar causas difíceis. No direito penal, muitas vezes o advogado precisa defender pessoas que já chegam ao tribunal com o peso da condenação moral da sociedade. É como tentar remar contra uma correnteza forte. Colegas afirmavam que ela não fugia desses casos. Ao contrário, via neles a essência da própria advocacia criminal, que é garantir que todo acusado tenha direito a uma defesa técnica e justa.
A advogada também tinha forte presença no meio acadêmico. Estava na fase final do mestrado em Antropologia na Universidade Federal do Piauí e atuava como professora em instituição privada na cidade de Campo Maior. Essa combinação de advocacia e pesquisa acadêmica revelava uma profissional inquieta intelectualmente. Para ela, o direito penal não era apenas um conjunto de códigos e artigos. Era também um fenômeno social que precisa ser compreendido à luz da cultura, da desigualdade e das tensões humanas.
A filiação à Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas reforçava seu compromisso com a área penal. Entre criminalistas, a entidade costuma funcionar como uma espécie de confraria intelectual, onde debates sobre garantias individuais e limites do poder punitivo do Estado são constantes. Letícia participava desse ambiente com entusiasmo, sendo vista por colegas como uma profissional disciplinada, estudiosa e sempre disposta a colaborar.
Nos corredores do fórum, sua imagem era associada a três características que costumam definir bons criminalistas. Coragem, preparo e empatia. Coragem para sustentar teses impopulares quando a lei assim exige. Preparo para enfrentar processos complexos. Empatia para lembrar que, por trás de cada processo, existe uma história humana.
Horas antes de morrer, Letícia havia publicado um vídeo nas redes sociais celebrando a semana de trabalho. Contava ter obtido uma absolvição e falava com entusiasmo de uma palestra que havia ministrado. Era o retrato de alguém que estava vivendo o melhor momento da carreira. Como um corredor que finalmente encontra ritmo depois de quilômetros de esforço.
A notícia de sua morte provocou manifestações de pesar da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Piauí, cujo presidente, Raimundo Júnior, expressou solidariedade à família e aos amigos.
A advocacia criminal é um ofício duro. Quem frequenta o Tribunal do Júri convive diariamente com histórias de violência, tragédia e perda. Mesmo assim, profissionais como Letícia conseguem transformar esse ambiente pesado em um espaço de defesa da legalidade e dos direitos fundamentais.
Sua morte precoce lembra aquelas histórias em que um livro promissor é interrompido antes do último capítulo. Ficam as páginas já escritas, o talento evidente e a sensação inevitável de que ainda havia muito mais a ser contado.
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