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Habitar é pertencer: o lugar como identidade

Intelectuais expondo o que pensa a Igreja Católica

27/03/2026 às 10h35 Atualizada em 27/03/2026 às 11h38
Por: Josenildo Melo Fonte: Arcebispo / Arquidiocese / CNBB
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Foto: https://www.paieterno.com.br/
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A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), convida-nos a compreender a moradia não apenas como construção física, mas como espaço de identidade e pertença. A reflexão do arquiteto e teórico norueguês Christian Norberg-Schulz (1926–2000) oferece uma chave importante para esse aprofundamento.

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Em sua obra Genius Loci – Towards a Phenomenology of Architecture, Norberg-Schulz retoma a tradição romana que falava do “espírito do lugar” (genius loci). Para ele, “habitar significa estar em paz num lugar protegido”; significa identificar-se com um lugar e sentir-se pertencente a ele. O ser humano não vive em um espaço abstrato, mas em lugares concretos, carregados de significado.

Segundo Norberg-Schulz, a tarefa fundamental da arquitetura é ajudar o homem a habitar. E habitar implica duas dimensões: orientação e identificação. Orientar-se é saber onde se está; identificar-se é reconhecer-se no ambiente. A casa, nesse contexto, não é mero objeto funcional, mas lugar onde o ser humano se reconhece e se enraíza.

Quando a moradia é digna, ela permite essa dupla experiência. A pessoa sabe onde está e sente que pertence. As paredes, a vizinhança, a rua, o bairro — tudo isso compõe uma geografia existencial. O lar torna-se ponto de referência afetiva e simbólica. A casa organiza o mundo ao redor.

O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 recorda que a moradia é direito humano fundamental e porta de entrada para outros direitos. À luz de Norberg-Schulz, podemos compreender que a ausência de moradia estável não é apenas uma questão de exclusão econômica; é desenraizamento. Quem vive sob constante ameaça de remoção ou deslocamento forçado tem sua identidade territorial fragilizada.

Habitar é pertencer. É sentir-se parte de um lugar que também nos reconhece. Quando bairros inteiros são marcados pela precariedade, pela violência ou pela invisibilidade urbana, compromete-se essa experiência de identificação. A pessoa deixa de sentir que o espaço a acolhe. E, sem pertença, a identidade enfraquece.

A encarnação revela que Deus escolhe um lugar concreto, uma cultura, uma comunidade. O Verbo não se manifesta em espaço abstrato. Ele assume um território, uma casa, uma aldeia. A salvação acontece em lugar determinado. O cristianismo, portanto, confere ao espaço habitado uma dignidade teológica.

Promover moradia digna significa permitir que cada pessoa tenha um lugar onde possa orientar-se e identificar-se. Significa fortalecer laços comunitários, reconhecer a importância dos territórios e combater a exclusão socioespacial que marca tantas cidades.

Uma sociedade verdadeiramente fraterna não pode aceitar que milhões vivam desenraizados. Garantir moradia digna é garantir identidade e pertença. É permitir que cada família tenha um espaço onde possa dizer: “Aqui é o meu lugar”.

Habitar é mais do que ocupar; é pertencer. E, onde há pertença, há dignidade, memória e esperança. Defender o direito à moradia é defender o direito de cada pessoa a ter um lugar no mundo.

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

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Sobre Josenildo Nascimento Melo é jornalista, estudou direito, é Bacharel em Serviço Social pelo ICF - Instituto Camillo Filho. É também licenciado em Filosofia pelo ICESPI - Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí.
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