O “jeitinho brasileiro” tem sido compreendido, muitas vezes, como desonestidade, favorecendo o preconceito de considerar os brasileiros desonestos. A realidade, sempre mais complexa e plural do que as expressões terminológicas que a traduzem, mostra a honestidade acontecendo frequentemente em ações do cotidiano do povo brasileiro. Em meio a tantas notícias de desonestidade e corrupção veiculadas pela mídia, encontram-se muitos exemplos que servem de alento e incentivo para acreditar que é possível trilhar o caminho da honestidade, da justiça e da verdade, a começar pelas pequenas ações do dia a dia.
Os pais e educadores necessitam redobrar os esforços para formar pessoas honestas desde a infância. Para tanto, o testemunho pessoal é fundamental, pois educa-se não somente pela palavra, mas sobretudo pelo exemplo. O mundo de hoje necessita de testemunhas, de exemplos concretos. São inúmeras as pessoas que se recordam, com profunda gratidão, da educação para a honestidade recebida na infância e adolescência, com os pais exigindo a devolução ao legítimo dono de algo furtado ou a reposição onde tivesse sido casualmente encontrado. É preciso educar para a honestidade. O antigo e sempre novo mandamento bíblico “não roubarás” necessita ser recordado e praticado hoje, nas diversas esferas da vida, seja privada ou pública, seja empresarial ou política. A aplicação rigorosa da justiça para combater a desonestidade e, sobretudo, a corrupção torna-se cada vez mais necessária e urgente no país.
Contudo, mais do que o temor da pena, é indispensável a experiência positiva de valores éticos, principalmente no contexto sociocultural e político em que vivemos. É preciso formar a consciência para assumir valores como a honestidade e ser coerente com eles nas ações do cotidiano e nas situações maiores. É questão de maturidade humana e ética. É próprio das primeiras fases da vida agir em função de estímulos imediatos, como a sensação de prazer e dor, ou em vista da aprovação social. A maturidade ética acontece quando se assumem valores e se é coerente com eles, independentemente de recompensas imediatas ou de aplausos. Ser coerente com o valor da honestidade pode levar alguém a ser rejeitado pelo seu próprio grupo ao recusar participar de alguma iniciativa desonesta tomada pelos seus pares ou ao deixar de compartilhar ideias que ferem a ética e a dignidade humana. Quando se assumem princípios e valores éticos, pode-se discernir e agir com retidão e coerência, no âmbito da vida privada e da vida pública. O “jeitinho brasileiro” não deve ser confundido com a transgressão de leis e a busca de vantagens pessoais desprovida de critérios éticos. Vale a pena educar para a honestidade e trilhar o caminho do bem e da verdade!
Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Salvador (BA)