
Durante décadas, quando se falava em produção de maconha no Nordeste brasileiro, o foco era praticamente um só: o chamado “polígono da maconha”, região localizada no sertão do Pernambuco, especialmente às margens do rio São Francisco. Ali, em municípios isolados e de difícil acesso, o cultivo clandestino de Cannabis sativa se consolidou desde os anos 1980 como uma economia paralela, alimentada pela pobreza rural e pela ausência histórica do Estado.
Mas essa geografia do crime mudou. Nos últimos quinze anos, as lavouras ilegais começaram a atravessar as fronteiras estaduais e avançaram para o território do Piauí. Hoje, além de corredor logístico para o tráfico de drogas entre Norte e Nordeste, o Estado também passou a ser área de produção da erva, com plantações descobertas em diversas regiões do interior.
A confirmação mais recente dessa expansão veio neste domingo, quando uma operação conjunta das forças de segurança encontrou uma das maiores plantações já registradas no estado. O cultivo clandestino foi localizado na zona rural de Vera Mendes, no sudeste piauiense, a cerca de 400 quilômetros de Teresina. No local, os policiais encontraram uma roça com cerca de 115 mil pés de maconha, espalhados em uma área considerável na localidade conhecida como Bom Lugar.
A ação foi coordenada pela Secretaria de Segurança Pública do Piauí, com participação da Polícia Civil do Piauí e da Polícia Militar do Piauí, incluindo equipes do 4º Batalhão e do Batalhão Especial de Policiamento do Interior. A operação foi desencadeada após denúncias recebidas pelo setor de inteligência da delegacia regional de Picos.
Quando os policiais chegaram ao local, a plantação estava abandonada momentaneamente. Nenhum trabalhador foi encontrado na área, mas as investigações permitiram identificar e qualificar o proprietário do imóvel onde o cultivo ocorria.
O tamanho da plantação revela o grau de profissionalização dessas lavouras ilegais. Uma roça com 115 mil pés de maconha pode gerar, dependendo da produtividade das plantas, toneladas da droga. No mercado clandestino, isso representa milhões de reais em lucro para organizações criminosas. Em termos comparativos, trata-se de uma produção agrícola que, se fosse legal, poderia rivalizar com pequenas lavouras comerciais de culturas tradicionais do semiárido.
O avanço dessas plantações no Piauí não é aleatório. Especialistas em segurança pública apontam que os traficantes passaram a migrar parte da produção do sertão pernambucano para outras áreas do Nordeste devido à intensificação das operações policiais no chamado polígono da maconha. Em busca de novas áreas menos monitoradas, os grupos criminosos encontraram no interior piauiense condições geográficas semelhantes: clima seco, vegetação de caatinga e vastas áreas rurais pouco fiscalizadas.
Municípios do sudeste do estado, especialmente na região de Picos, Paulistana, Jaicós e Vera Mendes, passaram a aparecer com frequência crescente em operações policiais que descobrem plantações clandestinas. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma mudança estrutural no mapa da produção de drogas no Nordeste.
Quem cultiva essas roças? Na maioria dos casos, segundo investigações policiais, os plantios são mantidos por agricultores recrutados ou pressionados por organizações criminosas. Alguns recebem pagamento para cuidar da lavoura; outros cedem suas terras ou são usados como intermediários. É uma dinâmica semelhante à observada em outras regiões produtoras de drogas no mundo, onde comunidades rurais pobres acabam sendo cooptadas por economias ilícitas que prometem ganhos rápidos.
A lógica é simples e cruel ao mesmo tempo. Onde o Estado chega pouco, o crime costuma chegar primeiro. Se a agricultura tradicional luta contra a seca, preços baixos e falta de assistência técnica, o cultivo ilegal surge como uma alternativa sedutora, ainda que carregada de riscos jurídicos e sociais.
A descoberta da plantação em Vera Mendes reforça um alerta que vem sendo repetido por autoridades de segurança: o Piauí deixou de ser apenas rota do tráfico e passou a integrar também o mapa da produção de drogas no Nordeste. É como se o estado tivesse sido incorporado silenciosamente a uma nova fronteira agrícola, não de soja, milho ou algodão, mas de uma cultura clandestina que cresce nas sombras.
No sertão piauiense, onde historicamente a luta sempre foi contra a seca e a pobreza, a expansão dessas lavouras revela um paradoxo inquietante. Enquanto o agricultor tradicional depende de chuva para sobreviver, o narcotráfico demonstra que, mesmo na terra mais árida, sempre há espaço para um cultivo lucrativo, ainda que seja um cultivo que floresce fora da lei.
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