Domingo, 28 de Junho de 2026
26°

Tempo nublado

Teresina, PI

Cultura JUSTIÇA E ÉTICA

Francisco Gomes de Araújo, a toga da serenidade que marcou a história da Justiça piauiense

Magistrado, professor e intelectual do Direito, o desembargador construiu uma trajetória exemplar no Judiciário do Piauí, formou gerações de juristas e consolidou um legado de integridade que o coloca entre os Gigantes do Direito do Passado e do Presente do Gazeta Hora1

15/03/2026 às 04h00
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Ex-desembargador Francisco Gomes de Araújo - Foto: Reprodução/Editada por IA
Ex-desembargador Francisco Gomes de Araújo - Foto: Reprodução/Editada por IA

Na galeria dos grandes nomes que ajudaram a moldar a história do Direito piauiense, algumas figuras se destacam pela dimensão de sua obra e pela influência duradoura que exercem sobre as gerações seguintes. Entre esses personagens está o ex-desembargador Francisco Gomes de Araújo, magistrado, professor e pensador jurídico cuja vida foi dedicada ao serviço da Justiça e à formação intelectual de inúmeros operadores do Direito. Pela solidez de sua trajetória, pela integridade de sua conduta e pela contribuição decisiva ao Judiciário e ao ensino jurídico no Piauí, Francisco Gomes jamais poderia deixar de figurar na galeria dos Gigantes do Direito do Passado e do Presente do Gazeta Hora1, espaço reservado àqueles que transformaram a toga em símbolo de responsabilidade pública e compromisso permanente com a lei e com a sociedade.

Na história do Direito piauiense existem nomes que se destacam pelo brilho das decisões e outros que se tornam grandes pela solidez da trajetória. Francisco Gomes de Araújo pertence à segunda categoria. Sua carreira não foi construída pelo espetáculo das manchetes, mas pela constância do estudo, pela firmeza moral e pela serenidade de quem compreendia o Direito como missão pública. Magistrado, professor e intelectual, ele ajudou a consolidar uma cultura jurídica que ainda hoje reverbera no Judiciário do Estado.

Francisco Gomes de Araújo nasceu em 21 de setembro de 1927 no município de Luzilândia, no Norte do Piauí. Filho de Bernardo Lopes de Araújo e de Jovina Gomes de Araújo, teve na própria mãe a primeira professora. Foi com ela que aprendeu as letras iniciais, em um tempo em que a educação doméstica era muitas vezes o primeiro degrau da formação intelectual. Essa base familiar moldou o caráter disciplinado e a curiosidade intelectual que o acompanhariam por toda a vida.

Ainda jovem seguiu o caminho dos estudos formais. Passou pelo Instituto Ateneu Costa Barcelar, em Brejo, no Maranhão, e concluiu o ginásio no tradicional Ginásio São Luiz Gonzaga. Depois mudou-se para Teresina, onde cursou o científico no histórico Liceu Piauiense, instituição responsável por formar parte significativa da elite intelectual do Estado. Ali amadureceu o interesse pelas humanidades e pelo pensamento jurídico.

O passo decisivo veio com a escolha do Direito. Em 1958 concluiu o bacharelado na então Faculdade de Direito do Piauí. Antes de ingressar na magistratura, viveu experiências importantes no serviço público e na iniciativa privada. Trabalhou como polícia fiscal da Secretaria de Finanças do Estado e depois na empresa Moraes S.A., período em que também exercia a advocacia. Esse contato com diferentes ambientes profissionais lhe deu uma visão concreta dos conflitos sociais que mais tarde enfrentaria como juiz.

A magistratura começou oficialmente em 1964, quando ingressou como juiz de direito adjunto da 5ª Zona Judiciária, com sede em Floriano. Naquele mesmo ano foi promovido para a Comarca de Guadalupe. Era o início de uma longa caminhada pelo interior do Estado, onde o juiz muitas vezes precisava ser ao mesmo tempo intérprete da lei, conciliador e referência moral para a comunidade.

Vieram depois as promoções para as comarcas de Altos e União. Em cada cidade deixou a marca de um magistrado meticuloso e respeitado. Julgava com base na lei, mas também com sensibilidade para compreender as circunstâncias humanas por trás de cada processo. Essa vivência no interior foi decisiva para moldar seu entendimento do Direito como instrumento de equilíbrio social.

Em 1979 chegou à capital para assumir funções de grande responsabilidade. Tornou-se juiz da 1ª Vara Criminal e presidente do Tribunal do Júri em Teresina. No plenário do júri, espaço onde a Justiça se encontra diretamente com a sociedade, destacou-se pela condução equilibrada das sessões e pelo respeito às garantias legais. Era conhecido pela serenidade e pela firmeza ao conduzir julgamentos complexos.

Em 1982 transferiu-se para a 2ª Vara Cível da capital. A maturidade da carreira e o reconhecimento de seus pares abriram caminho para a promoção ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, pelo critério de merecimento, ocupando a vaga decorrente da aposentadoria do desembargador Adolfo Uchôa Filho. No tribunal manteve o mesmo estilo discreto e técnico que havia marcado sua trajetória como juiz.

Entre 1992 e 1993 exerceu a função de corregedor-geral da Justiça. Nesse período trabalhou para aperfeiçoar procedimentos administrativos e fortalecer a disciplina institucional do Judiciário. Também teve atuação relevante na Justiça Eleitoral, participando da elaboração do regimento interno do Tribunal Regional Eleitoral e chegando a exercer o cargo de corregedor regional eleitoral.

Paralelamente à carreira judicial desenvolveu intensa atividade acadêmica. Lecionou inglês nas cidades em que serviu como juiz e, já em Teresina, tornou-se professor da Universidade Federal do Piauí. Ali ensinou Direito Penal, Prática Forense e Direito Processual Civil, formando gerações de estudantes. Para muitos alunos era mais que um professor. Era um exemplo vivo de ética profissional e dedicação ao estudo.

Intelectual inquieto, também produziu reflexões jurídicas e literárias publicadas em revistas e jornais. Entre seus textos destacam-se trabalhos como Pena de Morte, São Bernardo de Graciliano Ramos, Paulo Honório, o Homem e a Lei e Do Fato Notório. Nessas obras revelava um jurista que não via o Direito isolado da cultura, mas profundamente ligado à literatura, à filosofia e à realidade humana.

Francisco Gomes de Araújo aposentou-se em janeiro de 1996 e faleceu em Teresina em 20 de fevereiro de 1997. Seu nome foi eternizado como patrono do Fórum da Comarca de Antônio Almeida. Mais que um cargo ou um título, deixou como legado uma vida dedicada à Justiça, ao ensino e à construção de instituições sólidas. Para o Piauí jurídico, seu exemplo permanece como o de um magistrado que fez da serenidade e do conhecimento os pilares de uma carreira verdadeiramente gigante.

Ao falecer, Francisco Gomes de Araújo deixou a viúva Teresinha de Jesus Raulino de Araújo. Ele teve três filhos: Francisco Raulino Neto, ex-promotor de Justiça e advogado, Flávero Francisco Raulino de Araújo, e, ainda, Sheila Maria Raulino de Araújo, que faleceu ainda bebê. Na vida pública ou no ambiente familiar, permaneceu a imagem de um homem guiado por valores sólidos, cuja história continua a inspirar aqueles que veem no Direito não apenas uma profissão, mas um compromisso com a justiça e com a sociedade.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Paulo Roberto de Araújo BarrosHá 3 meses Teresina-PIRegistro minha satisfação com o artigo sobre o Desembargador Francisco Gomes de Araújo. Como seu ex-aluno, faço coro ao articulista. De fato, ele foi muito mais que um mestre; foi um exemplo vivo de ética e dedicação ao estudo. Para o Piauí jurídico, ele permanece como o modelo de magistrado que fez da serenidade e do saber os pilares de uma carreira gigante. Sinto-me herdeiro de suas lições e de sua integridade, que seguem inspirando nosso compromisso com a justiça e a sociedade
Laura Rosa Silva Há 3 meses Teresina-PI Tive a honra de ser aluna do competente Prof.Francisco Gomes de Araújo. Minha GRATIDÃO ao Desembargador pelo seu trabalho no Tribunal de Justiça do Piauí,feito com muita justiça. ????????????????????????????????????????
Mostrar mais comentários