
Até parece história de pescador. Daquelas em que o peixe cresce a cada repetição.
Mas desta vez quem conta a história não é um pescador na beira do rio. É o próprio Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
Segundo o órgão responsável pela segurança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais de 135 mil drones foram neutralizados desde 2023 nas proximidades de áreas sensíveis do governo federal.
Sim. Cento e trinta e cinco mil.
A informação impressiona. Mas também levanta uma avalanche de dúvidas. Principalmente quando se coloca esse número ao lado de outro dado oficial.
De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil, o Brasil possui mais de 1,2 milhão de drones registrados e cerca de 100 mil operadores habilitados. Se os números divulgados pelo GSI estiverem corretos, isso significa que mais de 10% de todos os drones registrados no país teriam sido neutralizados em algum momento nos últimos anos.
É um índice que parece tirado de um cenário de guerra tecnológica. Mas o Brasil não está em guerra. Pelo menos oficialmente.
E aí surge o primeiro grande enigma.
Se mais de 135 mil drones foram interceptados ou neutralizados, onde estão os responsáveis por operá-los?
Até agora, ninguém sabe. Nenhum operador identificado. Nenhuma prisão divulgada. Nenhum grande inquérito público conhecido.
É como se uma multidão invisível de pilotos anônimos tivesse decidido, ao mesmo tempo, invadir os céus das áreas presidenciais do país. E depois simplesmente desaparecido.
Quando se coloca esse número dentro de um cálculo simples, o caso fica ainda mais curioso. O atual governo começou em 1º de janeiro de 2023. Até 12 de março de 2026, passaram-se 1.167 dias de governo.
Agora vem a matemática elementar.
135.000 drones divididos por 1.167 dias.
Resultado aproximado:
116 drones neutralizados por dia.
Em outras palavras, se os números oficiais estiverem corretos, o Brasil teria vivido, nos últimos três anos, a seguinte rotina nos céus do poder:
116 drones derrubados por dia
quase 5 drones por hora
aproximadamente um drone neutralizado a cada 12 minutos
Não se trata de exagero retórico. É apenas aritmética básica.
E quando a aritmética entra na história, ela costuma desmontar narrativas ou exigir explicações mais robustas.
O GSI afirma que utiliza dois sistemas principais de neutralização. Um deles é fixo, instalado em áreas como o Palácio do Planalto e outras residências oficiais.
Esse sistema emite sinais de radiofrequência que interrompem a comunicação entre o drone e o operador. Sem controle, o equipamento pode retornar ao ponto de origem ou realizar um pouso forçado. Somente esse sistema teria bloqueado 54.627 aproximações não autorizadas em 2023.
Já o segundo sistema é móvel.
Trata-se da chamada DroneGun Tactical, um equipamento portátil capaz de derrubar drones a até dois quilômetros de distância. A arma tecnológica é utilizada em eventos presidenciais fora de Brasília e teria neutralizado 31 aeronaves.
Até aqui, a explicação parece plausível. O problema está no resto da história.
A pergunta mais elementar continua sem resposta. Quem operava esses drones? Essa informação foi repassada à Polícia Federal do Brasil? Foi aberto algum inquérito? Algum suspeito foi identificado? Alguma rede de espionagem foi descoberta?
Nenhuma dessas respostas foi apresentada ao público. E isso gera uma estranheza inevitável.
A desconfiança cresce porque o GSI carrega um passado recente que ainda provoca controvérsias. Foi o mesmo órgão que estava responsável pela segurança do Palácio do Planalto durante os atos de depredação ocorridos em Ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.
Naquela ocasião, imagens mostraram agentes acompanhando manifestantes dentro do prédio, orientando saídas e circulando em meio ao caos. Também houve questionamentos sobre o acesso e a liberação de imagens das câmeras de segurança.
Esse histórico torna inevitável a desconfiança quando novos números espetaculares aparecem.
Neutralizar 135 mil drones não é um detalhe administrativo. É um evento gigantesco do ponto de vista de segurança nacional.
Se verdadeiro, significa que a sede do governo brasileiro vive sob constante tentativa de invasão aérea. Se exagerado, significa que alguém está inflando estatísticas de segurança.
Em ambos os casos, a conclusão é a mesma. Essa história precisa ser melhor explicada.
Porque segurança de Estado não pode ser tratada como estatística solta em relatório. Ou houve 135 mil tentativas reais de invasão aérea contra o coração do poder brasileiro. Ou estamos diante de um número que precisa ser auditado com lupa.
De qualquer forma, uma coisa é certa. Essa não é história de pescador e ainda está mal contada.
E histórias mal contadas, em política e em segurança nacional, costumam esconder algo muito maior por trás dos números.
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