
No sertão, o povo aprendeu uma lição antiga: quando o céu escurece e o vento muda de rumo, é sinal de que a chuva vem. O problema é que, no Piauí, quem parece não enxergar os sinais é justamente quem deveria olhar primeiro. Bastaram as primeiras chuvas mais fortes e várias barragens do Estado passaram da tranquilidade para o de alerta máximo. Algumas ameaçam transbordar. Outras já registraram danos estruturais.
A natureza fez a parte dela. Choveu. O que está em discussão agora é outra coisa. O que transformou uma bênção em risco foi a velha mistura brasileira de abandono, burocracia lenta e prevenção inexistente.
A ex-vice-governadora Margarete Coelho já havia levantado essa bandeira meses atrás. Em novembro do ano passado, quando ainda não havia nuvem carregada no horizonte, ela fez um alerta que hoje soa quase como profecia.
Segundo ela, se nenhuma providência fosse tomada, o Piauí poderia perder metade de suas barragens.
Hoje, a frase ecoa como trovão no céu do sertão.
Reservatórios antigos espalhados do Norte ao Sul do Estado são essenciais para o abastecimento de cidades inteiras. São estruturas que garantem água para consumo, agricultura e criação de animais. Em regiões castigadas historicamente pela seca, cada barragem é tratada como se fosse um cofre guardando ouro líquido.
O problema é que muitos desses cofres estão enferrujando.
A barragem de Campestre, em Coronel José Dias, por exemplo, já registrou rompimento em parte do maciço. O caso levantou preocupação sobre a possibilidade de ruptura maior. Outros episódios também foram citados em cidades como Pedro II e Betânia do Piauí.
Em municípios como Redenção do Gurguéia e Cristino Castro, as chuvas provocaram alagamentos que expõem outra fragilidade da infraestrutura hídrica estadual.
No interior, o povo costuma dizer que açude sem cuidado vira armadilha. Primeiro vem o assoreamento. Depois aparecem rachaduras nas paredes. Quando as águas chegam com força, o reservatório vira uma panela de pressão.
Autoridades costumam recorrer a um velho argumento quando a situação sai do controle. Dizem que foi a força da natureza.
Sim, a chuva é fenômeno natural. Mas negligência administrativa não é.
Reservatórios não se deterioram da noite para o dia. Assoreamento não aparece em uma semana. Falhas estruturais levam anos para se formar. O que falta, quase sempre, é manutenção, fiscalização técnica e investimento preventivo.
No sertão existe um ditado simples. Quem conserta o telhado no verão não se molha no inverno. Governos parecem ter dificuldade em aprender essa lógica.
Quando a água ameaça romper barragens, começa o corre-corre institucional. Técnicos são enviados às pressas. Vistorias emergenciais são anunciadas. Planos de contenção aparecem de repente.
Mas prevenção quase nunca vira prioridade orçamentária.
A lógica política brasileira prefere inaugurar obras novas do que cuidar das antigas. Construir rende fotografia. Manutenção rende apenas segurança. E segurança raramente dá voto.
O resultado é um ciclo conhecido no Nordeste. Na seca, o povo implora por água. Na enchente, teme ser levado por ela.
O governador Rafael Fonteles agora se vê diante de um problema que já havia sido anunciado.
Quando Margarete Coelho fez o alerta sobre as barragens, muitos trataram a fala como discurso político. Hoje, os acontecimentos dão à declaração um peso que vai além da disputa partidária.
Ela afirmou que o Estado precisava investir na manutenção de reservatórios e na construção de novas estruturas para garantir segurança hídrica. Também defendeu que a gestão da água deveria ser tratada como prioridade estratégica.
No Piauí, água não é apenas recurso natural. É sobrevivência.
Quem vive nas proximidades dessas barragens conhece bem o medo que começa a circular quando os reservatórios enchem demais. Casas simples ficam a poucos metros dessas estruturas. Comunidades inteiras dependem da estabilidade dessas paredes de terra e concreto.
Quando o poder público falha, o risco não recai sobre gabinetes climatizados. Recai sobre o agricultor que planta feijão na várzea. Sobre o criador que depende do açude para o gado. Sobre famílias que vivem ali há gerações.
O sertanejo enfrenta seca de rachar o chão e enchente de carregar ponte. O que ele não deveria enfrentar é o descaso administrativo.
O problema das barragens no Piauí não começou com as chuvas deste ano. Ele vem se acumulando há décadas. Agora que o alerta virou realidade, resta uma pergunta que ecoa como eco nas chapadas do sertão.
Se o aviso foi dado antes da tempestade, por que ninguém correu para consertar o telhado? Porque, no final das contas, desastre natural é uma coisa.
Desastre por negligência é outra completamente diferente. E o povo do Piauí já está cansado de saber a diferença.
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