
A imagem é chocante. Uma caçamba, carregada, pesada, símbolo da engrenagem econômica, atolada sobre uma ponte de madeira na BR-222, uma rodovia federal. Não é estrada vicinal esquecida no mapa. Não é atalho rural improvisado. É BR. É Brasil.
Confesso que a cena choca duas vezes. Primeiro pela precariedade da ponte. Segundo, pela própria existência de uma ponte de madeira numa rodovia federal em pleno século XXI. Como se asfalto e improviso pudessem conviver no mesmo projeto. Como se engenharia fosse detalhe e não fundamento.
Rodovia asfaltada, mas sem a chamada obra de arte especial. Sem ponte de concreto armado. Sem estrutura compatível com o fluxo de cargas pesadas. Como isso foi aprovado? Quem projetou? Quem fiscalizou? Quem assinou? Quem liberou? São perguntas simples que ecoam como marteladas.
Cenas como essa são mais comuns em estradas vicinais do Maranhão ou em trechos estaduais esquecidos. Mas numa BR, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, é, no mínimo, incompreensível. Ou talvez seja perfeitamente compreensível quando se troca planejamento por remendo e fiscalização por formalidade burocrática.
E, como se não bastasse, quase simultaneamente, outro retrato do improviso. Uma rodovia estadual recém-construída ligando Castelo do Piauí ao Cânion do Rio Poti, cartão-postal do Norte do Estado, teve parte da pista arrancada pelas chuvas. Não foi enchente histórica. Não foi catástrofe bíblica. Foi chuva. Daquelas que fazem parte do calendário climático.
Uma estrada nova que se desfaz com água revela o quê? Erro de projeto? Erro de execução? Economia malfeita? Ou economia bem direcionada para outros bolsos? Quando o asfalto vai embora, a dúvida fica. O que foi economizado voltou ao erário ou evaporou no caminho?
Estrada não é enfeite de propaganda. Rodovia é comunicação, integração, desenvolvimento. É ambulância que precisa passar. É produção agrícola que precisa sair. É turismo que precisa chegar. Quando uma ponte cede ou um trecho desaparece, não é apenas concreto que falha. É o Estado que falha.
O governador Rafael Fonteles fala com frequência em expansão da malha viária. Mas expansão sem fiscalização é multiplicação de problemas. Construir é fácil no discurso. Difícil é exigir projeto bem-feito, execução correta e entrega durável.
E a pergunta que incomoda é simples. Quantas pontes de madeira ainda existem no Piauí? Em rodovias estaduais? Em federais? Quantas estão esperando a próxima carreta, a próxima chuva, o próximo susto? Ou pior, a próxima tragédia?
Pode haver justificativas técnicas. Pode haver relatórios explicativos. Mas a impressão que fica é a do descaso. Descaso com a coisa pública, com o cidadão e, sobretudo, com quem tenta fazer a economia girar em um estado que precisa crescer.
No fim das contas, a pergunta não é apenas quem vai reparar a ponte ou reconstruir o trecho. A pergunta é se será feito direito desta vez. Ou se continuaremos asfaltando promessas sobre estruturas de madeira.
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