
Contra fatos não há argumentos. A frase pode soar como clichê de debate, mas ganha força quando os números falam mais alto que o discurso oficial. E os números, nesse caso, têm assinatura, carimbo e metodologia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Os dados mais recentes da Pnad Contínua colocaram o Piauí numa posição nada confortável em 2025. O estado registrou 9,3% de taxa média anual de desocupação, a maior do país, enquanto a média nacional ficou em 5,6%. Não se trata de opinião, é estatística oficial. O Piauí ficou fora do grupo de 19 estados e do Distrito Federal que atingiram a menor taxa histórica desde o início da série, em 2012. Em vez de celebrar recordes positivos, liderou o ranking que ninguém quer liderar.
E não para por aí. Quando se observa a taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui desempregados, subocupados e pessoas disponíveis para trabalhar mais horas, o quadro é ainda mais preocupante. O Piauí atingiu 31%, o pior índice do Brasil. A média nacional foi de 14,5%. Em bom português, quase um terço da força de trabalho está desperdiçada, subaproveitada ou à margem.
Há também o desalento. Pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego porque não acreditam que vão conseguir. O estado aparece entre os piores índices do país, com 7,8%. Não é apenas falta de vaga, é falta de esperança.
E, no entanto, a narrativa oficial segue em outra direção. O governo de Rafael Fonteles sustenta que o estado vem registrando crescimento consistente no estoque de empregos formais, apoiando-se nos dados do Caged, que apontam a criação de 21.022 novos postos de trabalho com carteira assinada em 2025 e uma variação positiva de 5,81%.
Os dois conjuntos de dados podem coexistir? Sim. Mas contam histórias diferentes.
O Caged mede fluxo de empregos formais. A Pnad mede a fotografia mais ampla do mercado de trabalho, incluindo informalidade, desalento e subutilização. E é justamente nessa fotografia mais abrangente que o Piauí aparece em posição crítica.
O governo argumenta que a taxa começou o ano em 10,2% e caiu para 8% no quarto trimestre, mantendo média anual de 9,3%. Tecnicamente correto. Politicamente insuficiente. Porque a média anual ainda é a pior do país. E porque, enquanto os percentuais são debatidos em planilhas, a realidade é visível nas ruas.
Não é preciso ser economista para perceber que algo não fecha. Basta circular pelos centros comerciais, observar o crescimento do número de vendedores ambulantes, de trabalhadores informais, de pessoas pedindo ajuda nos semáforos. O piauiense está, como se diz popularmente, “se virando nos 30”. Ou, numa expressão francesa que traduz bem o improviso permanente, está “vivant de la dent”, vivendo do que aparece no dia, do bico, do improviso, da sobrevivência.
O estado ainda não colapsou socialmente por duas razões evidentes. Primeiro, pela capacidade histórica do seu povo de se reinventar na adversidade. Segundo, porque quase metade da população depende direta ou indiretamente de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Isso não é demérito do cidadão, é retrato de uma economia frágil.
Outro dado revelador é o percentual de trabalhadores do setor privado com carteira assinada. O Piauí aparece entre os menores do país, com 54,3%, muito abaixo da média nacional de 74,4%. Ou seja, mesmo quando há ocupação, ela frequentemente é informal, precária ou instável.
Dizer que há geração de empregos formais é correto. Dizer que o mercado de trabalho vive um ciclo robusto de prosperidade é outra história. Quando o estado lidera o desemprego e a subutilização no país, falar apenas do copo meio cheio soa como marketing otimista demais para uma realidade dura demais.
Transparência não é opcional, é obrigação republicana. O governo não pode negar, encobrir ou camuflar dados oficiais produzidos pelo próprio Estado brasileiro. A credibilidade institucional depende disso. Maquiar números pode até render manchetes favoráveis no curto prazo, mas não resolve o problema estrutural.
E há um simbolismo curioso no timing. Os dados saem logo após o Carnaval, como se anunciassem que as máscaras caíram. Terminada a festa, a estatística lembra que a economia não dança ao ritmo do discurso.
O que tudo isso revela? Que o Piauí enfrenta, sim, uma crise de emprego, inserida num contexto nacional desafiador, mas com agravantes locais evidentes. Revela que a recuperação é mais lenta do que a narrativa oficial sugere. Revela que o crescimento anunciado precisa ser confrontado com a realidade concreta dos índices mais amplos.
Contra fatos, não há argumentos. E contra os números do IBGE, não há retórica que baste. Como "gênio da matemática", o governador Rafael Fonteles sabe disso. E sabe também que o povo sente na pele. E sentir, neste caso, é a estatística mais precisa de todas.
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