
Niède Guidon nunca foi apenas uma arqueóloga. Foi ruptura, insistência, confronto com dogmas e, sobretudo, permanência. Mesmo após sua morte, seu trabalho continua desafiando certezas e reorganizando a forma como o mundo compreende a ocupação humana nas Américas. É a partir desse princípio que nasce o livro “Serra da Capivara”, do fotojornalista André Pessoa, lançado neste sábado (7), em São Paulo.
A obra não surge como um tributo tardio protocolar. Ela se impõe como um documento histórico, científico e simbólico. Um registro que transforma imagens em prova, memória em resistência e fotografia em ciência. Seis meses após a morte de Niède Guidon, o livro se consolida como a primeira grande homenagem póstuma à mulher que projetou o Piauí para o centro do debate arqueológico mundial.
Produzido ao longo de anos e concebido originalmente para ser apresentado à arqueóloga ainda em vida, o livro acabou adquirindo outra dimensão com sua partida. Tornou-se, inevitavelmente, um marco editorial e um testemunho do alcance de mais de cinco décadas de pesquisas realizadas na Área Arqueológica de São Raimundo Nonato.
“Era um projeto pensado como surpresa, como reconhecimento em vida. Infelizmente, não foi possível. O livro acabou se transformando numa homenagem póstuma, mas também num resumo muito fiel do legado científico da Niède e de sua equipe”, afirmou André Pessoa.
Em “Serra da Capivara”, a paisagem não é cenário — é personagem. As imagens revelam paredões, abrigos, pinturas rupestres e sítios arqueológicos como arquivos abertos da humanidade. Cada fotografia dialoga diretamente com o trabalho de Niède Guidon, responsável por romper com teorias consolidadas e sustentar, com evidências, que a presença humana no continente americano é muito mais antiga do que se admitia.
O livro materializa aquilo que a arqueóloga defendeu por décadas, muitas vezes enfrentando resistência acadêmica, escassez de recursos e abandono institucional: a Serra da Capivara não é apenas um patrimônio brasileiro, mas um patrimônio da humanidade.
O lançamento acontece na Livraria Megafauna, no Centro Histórico de São Paulo, a partir das 17h, na unidade Megafauna Copan, reunindo jornalistas, cineastas, pesquisadores e nomes ligados à cultura e à ciência.
A agenda de lançamentos reflete a dimensão internacional da obra e do legado de Niède Guidon:
8 de março (Dia Internacional da Mulher): Museu do Amanhã, Rio de Janeiro
23 de março: Biblioteca Depois
Teresina: data a definir
Exterior: início pela França, com expansão para outros países
Embora pernambucano, André Pessoa construiu no Piauí muito mais que uma carreira. Construiu pertencimento. Há mais de 30 anos, dedica seu trabalho à documentação científica, cultural e ambiental do estado, especialmente em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano.
“Tudo o que alcancei profissionalmente passa pelo Piauí. Pela confiança do povo, pelas paisagens e pela ciência produzida aqui. A Serra da Capivara é um lugar que muda quem a atravessa”, resume.
O livro conta ainda com a colaboração de pesquisadores e especialistas da França, Inglaterra, Itália e Espanha, além de jornalistas brasileiros, reforçando o caráter multidisciplinar e internacional da obra.
Niède Guidon morreu aos 92 anos, em 4 de junho de 2026, mas seu trabalho permanece em estado ativo. Nas pedras, nas pinturas rupestres, nos debates científicos e agora também nas páginas de um livro que se recusa a tratá-la como passado.
“Serra da Capivara” não é apenas uma homenagem. É um manifesto silencioso de que a ciência resiste, mesmo quando seus maiores nomes se vão. E de que o Piauí, graças a Niède Guidon, ocupa definitivamente um lugar central na história da humanidade.
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