
Em Teresina, poucos espaços conseguiram atravessar décadas sem perder relevância simbólica. O Bar do Santana é um desses raros lugares. Mais do que um ponto de venda de bebidas, o Santana foi, por mais de meio século, uma espécie de ágora informal da capital piauiense, onde política, poder, ideias e bastidores se encontravam longe dos microfones e holofotes oficiais.
Todo teresinense que se preza frequentou o Santana ou, no mínimo, ouviu falar dele. Ali se reuniam políticos em ascensão ou em declínio, advogados influentes, empresários discretos e jornalistas atentos. Muitos não iam necessariamente para beber, mas para ouvir. O bar funcionava como um radar político, um espaço privilegiado para captar sinais do que estava para acontecer nos corredores do poder local.
Ao longo dos anos, figuras centrais da vida pública piauiense passaram por aquelas mesas. Governadores, prefeitos, parlamentares, dirigentes partidários e articuladores políticos tinham no Santana uma parada quase obrigatória. Era ali que se costuravam alianças, se avaliavam crises e se testavam narrativas antes de ganharem forma pública. O Santana não decidia eleições, mas ajudava a entender por que elas seriam vencidas ou perdidas.
Parte desse magnetismo vinha da figura lendária de seu proprietário, Joaquim Santana. Conhecido por suas excentricidades e personalidade marcante, ele impunha ao ambiente uma mistura rara de informalidade e respeito. Divergências políticas eram comuns, mas o diálogo prevalecia. Discutia-se política, religião, futebol e a vida cotidiana do Piauí e do Brasil com uma liberdade que hoje parece quase utópica.
O Bar do Santana foi também um retrato das formas de sociabilidade de uma Teresina que mudou com o tempo. Durante mais de cinco décadas, o espaço acompanhou transformações urbanas, culturais e políticas da cidade. O bar resistiu a modismos, atravessou gerações e se consolidou como um dos estabelecimentos de maior longevidade da capital.
Com a morte de Santana, o bar “subiu dessa para uma melhor”. O espaço se transformou em restaurante, mas a história não se apagou. Pelo contrário, permaneceu viva na memória coletiva e no imaginário popular, alimentada por histórias repetidas, exageradas, recriadas. Porque lugares como o Santana não desaparecem. Eles se transformam em narrativa.
Agora, essa memória ganha registro definitivo. As histórias, causos e personagens ligados ao bar foram eternizados no livro Amigos do Santana – do bar à confraria, de autoria de Gustavo Said e Nina Cunha. A obra reúne 187 páginas, inúmeras fotografias e está organizada em nove capítulos que reconstroem não apenas a história do bar, mas o contexto social e político que o cercava.
O lançamento ocorrerá em dois momentos simbólicos. Nesta sexta-feira, 23 de janeiro, a partir das 18h, no local onde funcionava o bar, na esquina das ruas Primeiro de Maio e Álvaro Mendes, hoje restaurante Santana, em um encontro reservado a antigos e atuais frequentadores. Já na próxima terça-feira, 27, às 18h, o livro será apresentado ao público em geral na Livraria Entrelivros, na avenida Dom Severino.
O prefácio foi assinado pelo jornalista e historiador Cláudio Barros, ele próprio frequentador do Santana por um período. Não por acaso. O bar foi também um espaço de observação privilegiada da política piauiense, onde o que era dito em tom de brincadeira muitas vezes antecipava movimentos reais do poder.
Resgatar a história do Bar do Santana é mais do que um exercício de nostalgia. É compreender como a política local se construiu também fora dos palácios, assembleias e gabinetes. Em Teresina, por décadas, muito do que importava passava antes por uma mesa simples, um copo servido e uma conversa atravessada pela franqueza que só os bares verdadeiramente históricos conseguem produzir.
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