
Um dos casos mais chocantes da história recente da saúde brasileira veio à tona no Distrito Federal. Três técnicos de enfermagem foram presos acusados de assassinar pacientes internados em UTI ao injetar substâncias químicas diretamente na veia, provocando paradas cardíacas e, em seguida, simulando tentativas de reanimação para ocultar os crimes. A investigação é conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal, no âmbito da Operação Anúbis.
Os crimes ocorreram na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga.
As autoridades identificaram um técnico como o principal articulador do esquema e duas técnicas como coautoras. Os nomes não foram amplamente divulgados no momento inicial da investigação para preservação processual e das famílias das vítimas, mas todos atuavam regularmente na UTI do hospital e tinham acesso direto aos pacientes, medicamentos e sistemas internos.
O papel de cada um, segundo a polícia, estava bem definido:
O mentor aplicava as substâncias letais;
As duas técnicas davam cobertura, vigiando a porta dos quartos para impedir a entrada de outros profissionais durante as aplicações.
A investigação aponta que o grupo agia de forma coordenada e reiterada. O principal suspeito:
acessava indevidamente o sistema de prescrição médica, que estaria aberto;
se passava por médico para registrar procedimentos;
retirava os produtos na farmácia do hospital;
escondia as substâncias no jaleco;
e as aplicava diretamente na veia dos pacientes.
Em um dos casos mais graves, o técnico teria aplicado um produto desinfetante repetidas vezes, aguardando a piora clínica até a parada cardíaca. Em seguida, realizava manobras de reanimação diante de colegas, numa tentativa deliberada de simular uma emergência espontânea.
A polícia descreve o método como frio, calculado e repetido.
Até agora, três mortes estão confirmadas:
duas em 19 de novembro de 2025;
uma em 1º de dezembro de 2025.
As vítimas tinham quadros clínicos distintos, o que levantou suspeitas após sucessivas pioras súbitas, incompatíveis com a evolução esperada. A Polícia Civil não descarta novas vítimas, e a investigação segue em curso.
De acordo com os investigadores, a ideia partiu do principal suspeito, que já demonstrava comportamento fora do padrão, abuso de funções e acesso irregular a sistemas médicos. A adesão das duas técnicas ocorreu pela relação de confiança profissional, rotina compartilhada na UTI e, segundo a polícia, pela percepção de que os crimes poderiam passar despercebidos em um ambiente crítico como a terapia intensiva.
Não há, até o momento, indícios de motivação financeira direta. A polícia trabalha com a hipótese de desvio psicológico grave, associado à sensação de poder e controle sobre a vida e a morte dos pacientes.
Durante o interrogatório:
o principal suspeito negou as acusações inicialmente;
após ser confrontado com imagens das câmeras de segurança e registros internos, acabou confessando;
as duas técnicas alegam que não aplicaram substâncias, mas a polícia sustenta que houve coautoria consciente, pela vigilância e facilitação dos crimes.
Todos foram demitidos pelo hospital, que instaurou comitê interno e comunicou imediatamente as autoridades ao identificar irregularidades.
O episódio escancara fragilidades graves:
controle de acesso a sistemas médicos;
segurança na administração de medicamentos;
fiscalização em ambientes críticos como UTIs.
Mais do que um crime comum, trata-se de uma quebra brutal do pacto de confiança entre pacientes e profissionais de saúde. A UTI, espaço destinado a salvar vidas, virou palco de mortes provocadas por quem deveria proteger.
O caso segue como homicídio qualificado, e a apuração continua. A pergunta que ecoa, além da investigação criminal, é institucional e ética, como foi possível que isso acontecesse sem ser detectado antes.
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