
Há pelo menos um ano e meio o Gazeta Hora1 vem soando o alarme sobre o domínio progressivo do narcotráfico no Sul do Piauí. Os fatos agora falam mais alto do que qualquer narrativa oficial. Não é normal, nunca foi, a quantidade de drogas apreendidas na região de Picos. A tese conveniente de que o município seria apenas um “corredor da droga” ruiu de vez quando a polícia encontrou um laboratório completo de refino em São Julião. Corredor não refina, corredor não prensa, corredor não embala. Quem faz isso é quem manda no território.
O Piauí deixou de ser rota há muito tempo e passou a ocupar um papel mais lucrativo e mais perigoso na engrenagem do crime organizado, o de centro de refino e distribuição. De Norte a Sul do Estado, facções criminosas se instalaram com método empresarial, fabricando e espalhando cocaína, maconha e crack como quem opera uma indústria a céu aberto. O crime já não se esconde em becos escuros. Ele ostenta, ocupa espaços públicos e cria até áreas VIP. O fechamento recente de um baile de reggae em Teresina, com camarote exclusivo para faccionados, é o retrato de um poder paralelo que não teme mais o Estado.
A semana começa com a desmontagem de um laboratório de cocaína na microrregião de Picos, após uma operação integrada das forças de segurança. No local, prensas hidráulicas, produtos químicos, balanças, rádios, máquinas de cartão e drogas escondidas em freezers, potes e até enterradas no quintal. Isso não é improviso. É logística. É cadeia produtiva. É crime organizado operando com estabilidade suficiente para investir, armazenar e distribuir.
A ação envolveu a Polícia Militar do Piauí, a Polícia Civil e unidades especializadas, que cumpriram seu papel repressivo. Mas a pergunta que insiste em não calar é outra. Como tudo isso se instalou com tanta facilidade? Em que momento o Estado cruzou os braços, fechou os olhos ou preferiu fingir que não via? E mais grave, o narcotráfico já contaminou instituições que deveriam combatê-lo?
Hoje, a polícia age quase sempre no retrovisor. Corre atrás do prejuízo, reage ao crime consumado, enquanto as facções avançam com planejamento, inteligência e domínio territorial. O laboratório em São Julião não surgiu do dia para a noite. Ele demandou tempo, proteção, silêncio e uma sensação clara de impunidade. Nenhuma organização criminosa cresce sem perceber fragilidade do Estado.
O que está em jogo não é apenas a apreensão de drogas ou a prisão de um suspeito. É o controle efetivo do território, a autoridade do poder público e o futuro de cidades inteiras que já convivem com o crime como parte da paisagem. O Piauí precisa decidir se continuará tratando o narcotráfico como episódios isolados ou se reconhecerá, de uma vez por todas, que enfrenta um projeto criminoso estruturado. Enquanto essa decisão não vem, as facções seguem fazendo aquilo que o Estado não fez, ocupar, dominar e mandar.
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