
O governo Rafael Fonteles caminha para a reta final com um problema que não se resolve em discurso nem em power point: as grandes promessas estruturantes simplesmente não se materializam. Algumas nem chegam a sair do papel. Outras até saem, mas tropeçam logo nos primeiros passos e acabam atravessadas por falhas básicas de planejamento, licenciamento e execução.
O caso mais recente e simbólico é o da usina de hidrogênio verde, vendida como a joia da coroa da gestão, a vitrine internacional de um Piauí moderno, sustentável e alinhado às novas matrizes energéticas do mundo. O projeto, conduzido pela empresa Solatio, foi suspenso pela Justiça Federal por algo elementar: a ausência de outorga para uso da água do Rio Parnaíba, um bem da União. Para um empreendimento que prevê a captação de mais de 91 milhões de litros de água por dia, esquecer, ou ignorar, esse detalhe não é descuido pequeno. É erro de nascença.
O mais constrangedor é que se trata de um projeto alçado pelo próprio governo à condição de símbolo ambiental. E justamente ele esbarra em falhas ambientais graves, com risco de dano irreversível, segundo a decisão judicial. Fica a pergunta inevitável: houve pressa excessiva para anunciar? Faltou rigor técnico? Ou o marketing falou mais alto que a cautela administrativa?
Mas o hidrogênio verde não é um caso isolado. Ele se soma a um roteiro já conhecido na atual gestão: anúncios grandiosos, expectativas infladas e entregas frustradas. O porto prometido como vetor de desenvolvimento logístico não passa de um cais, um portal e um galpão para vender desenvolvimento e entragar ilusão. A tão falada navegabilidade do Rio Parnaíba, apresentada como solução econômica e integração regional, continua no campo das intenções. Agora, a usina de hidrogênio verde entra para a lista das obras que até começaram a andar, mas tropeçaram antes de ganhar velocidade.
O governo tenta sustentar a narrativa de que projetos dessa magnitude exigem tempo, amadurecimento e enfrentam entraves naturais. É verdade. Mas também é verdade que um governo não pode confundir planejamento com improviso, nem ousadia com negligência técnica. Quando promessas se acumulam sem entrega concreta, o saldo político deixa de ser esperança e passa a ser frustração.
No fim das contas, o que se desenha é um governo mais eficiente em anunciar do que em concluir. As grandes obras que embalaram a campanha e alimentaram a gestão não chegaram ao destino final. Algumas ficaram no papel. Outras, como o hidrogênio verde, até ganharam forma, mas saíram tortas, atravessadas por erros que poderiam, e deveriam, ter sido evitados.
Para quem prometeu modernizar o Estado com projetos estruturantes, o risco agora é outro: encerrar o mandato com um catálogo vistoso de promessas e um acervo modesto de entregas. A atuação do Ministério Público Federal é correta, necessária e institucionalmente legítima, ao cumprir o papel de frear abusos e proteger o meio ambiente.
O problema é que essa intervenção tende a ser convenientemente usada pelo governo como álibi para justificar o fracasso do que foi prometido e não saiu do papel, ou saiu torto. No fim, a fiscalização vira desculpa, o planejamento deficiente fica em segundo plano e o fiasco administrativo ganha verniz jurídico.
Em política, porém, o eleitor distingue bem obstáculo externo de erro interno e, quase sempre, cobra a conta de quem anunciou demais e entregou de menos.
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