O livro de Antoine de Saint-Exupéry é uma fábula poética e filosófica sobre um aviador perdido no deserto que encontra um menino vindo de um asteroide, discutindo temas como amor, amizade, solidão, o sentido da vida e a crítica à visão superficial dos adultos, por meio das viagens do príncipe e de seus encontros, destacando que “o essencial é invisível aos olhos”. É um livro para todas as idades, principalmente para quem consegue perceber as coisas além das aparências. E o que é o mundo contemporâneo, senão um mundo de aparências?
Lemos o livro O Pequeno Príncipe por meio da tradução considerada a mais perfeita já feita no Brasil. E quem a realizou? Dom Marcos Barbosa. E quem foi ele? Foi o quinto ocupante da cadeira nº 15 da ABL – Academia Brasileira de Letras. Eleito em 20 de março de 1980, na sucessão de Odilo Costa Filho, foi recebido por Alceu Amoroso Lima em 23 de maio de 1980. Dom Marcos Barbosa (nome civil: Lauro de Araújo Barbosa), beneditino, poeta e tradutor, nasceu em Cristina (MG), em 12 de setembro de 1915, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de março de 1997. Nobre monge!
Qual a razão de um livro de, no máximo, 95 páginas ainda não ser conhecido pela maioria das pessoas, inclusive por aquelas que apreciam bons livros? Ao escolher livros para ler, faz-se necessário não apenas olhar a capa e a textura, ou muito menos a espessura; um livro escrito reflete muito da vida de quem o escreveu ou até mesmo de quem traduziu a obra. O Pequeno Príncipe realmente deve ser lido além das aparências; e nada melhor do que um monge para realizar a mais célebre tradução.
Informações públicas dão conta de que Dom Marcos Barbosa concluiu o ginásio em Itajubá, matriculou-se, em 1934, na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, tendo participado então da Ação Universitária Católica e do Centro Dom Vital, quando conheceu Alceu Amoroso Lima, de quem se tornou secretário particular. Em 1940, ingressou no Mosteiro de São Bento (RJ), com vários outros universitários, interrompendo o curso de Letras Clássicas, que começara ao terminar o de Direito. Ordenado sacerdote em 1946, foi retomando aos poucos a vocação de escritor, pois já publicara anteriormente crônicas e poemas não só em A Ordem e Vida, revistas das quais foi redator, como também em O Jornal e na Revista do Brasil. Após breve passagem pelas rádios Cruzeiro e Mayrink Veiga, manteve, de 1959 a 1993, na Rádio Jornal do Brasil, o programa Encontro Marcado, apresentado diariamente às 18 horas. Esse programa passou a ser transmitido posteriormente pelas rádios Carioca-AM e Catedral-FM, também diariamente. Colaborou, ainda, todas as quintas-feiras, no Jornal do Brasil.
O que é algo além das aparências? Ver além das aparências significa ir além da superfície, não julgar pelas primeiras impressões e buscar a essência, o caráter, a história e os sentimentos verdadeiros de uma pessoa ou situação, percebendo que a realidade é mais profunda do que os olhos mostram, valorizando a autenticidade e a conexão genuína em vez de julgamentos precipitados ou falsidades. Talvez essa seja a principal mensagem do livro O Pequeno Príncipe. O mundo dos adultos é feito de julgamentos e incompreensões? A vida adulta é essencialmente disputa e consolidações profissionais, independentemente das formas usadas para galgar elevações sociais? Certo mesmo é que devemos fazer o bem sem olhar a quem. Jesus Cristo, Deus, compreende o mundo e os que o habitam; porém aconselhou: vivam no mundo, mas não pertençam ao mundo mundano. Ler e escrever é algo muito sério. Dom Marcos Barbosa teve a vida inteira dedicada a Deus e aos livros!
Se eu fechar os olhos,
tu estarás presente;
se eu adormecer,
serás o meu sonho;
e serás, ao despertar,
o sol
que desponta.
Dom Marcos Barbosa