
Os governos de esquerda costumam se apresentar como guardiões da justiça social, paladinos do “Estado forte” e defensores intransigentes de mais arrecadação como caminho para reduzir desigualdades. Na prática, porém, o discurso frequentemente lembra aquelas placas de trânsito que mandam reduzir a velocidade enquanto o radar está quebrado. Cobra-se muito, arrecada-se cada vez mais, mas o exemplo raramente vem de cima.
No plano nacional, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva já é apontado como responsável por criar ou majorar quase 40 tributos em apenas três anos. É um recorde digno de maratona fiscal. Cada nova taxa surge embalada por um discurso nobre, mas quem paga a conta continua sendo o mesmo personagem de sempre, o contribuinte comum, aquele que não tem escritório de advocacia, nem tempo para discutir parcelamentos infinitos com a União.
No Piauí, o roteiro se repete com sotaque local. O governador Rafael Fonteles, do PT, elevou o ICMS a um patamar que coloca o estado entre os mais caros do Brasil. Além disso, surgem outras taxas e contribuições, algumas já judicializadas, como a controversa cobrança sobre a energia solar. É o imposto que nasce com discurso verde, mas pesa no bolso de quem tentou economizar na conta de luz.
O paradoxo começa a ficar constrangedor quando se observa que nem todos os entusiastas da alta carga tributária parecem muito dispostos a pagar os próprios impostos. O Colégio CEV, ligado à família do governador, foi alvo de ação de execução fiscal da Fazenda Nacional, com registros em Dívida Ativa da União que somam mais de R$ 3 milhões. A União, paciente como um cobrador de condomínio, oferece parcelamento, negociação e diálogo. Caso contrário, vem a expropriação. Nada de ideologia, apenas matemática.
A contradição ganha contornos ainda mais simbólicos quando atinge órgãos de controle. Como explicar que quem fiscaliza as contas públicas tropeça justamente na obrigação mais básica, pagar imposto? A União cobra na Justiça uma dívida de quase R$ 250 mil da conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, Flora Izabel. A ação de execução fiscal, movida pela Fazenda Nacional, tramita na 4ª Vara Federal de Execução Fiscal e envolve Imposto de Renda não pago, acrescido de multas e juros.
É como se o juiz do jogo estivesse jogando com a camisa do time adversário. A dívida refere-se a anos em que a conselheira já ocupava posição de destaque na vida pública, fiscalizando orçamentos, despesas e legalidade de atos administrativos. Ainda assim, o imposto sobre a própria renda ficou pelo caminho. Houve tentativas de parcelamento, pagamentos parciais, rescisão do acordo e, por fim, protesto da dívida. Um roteiro conhecido de muitos contribuintes, mas inesperado para quem cobra rigor alheio.
A pergunta que ecoa é simples e incômoda, se não pagam os próprios tributos, com que autoridade moral exigem sacrifício da sociedade? Quando governos ampliam impostos, mas seus quadros convivem com execuções fiscais, o discurso da justiça social vira caricatura. É como pedir austeridade sentado em poltrona de veludo, ou defender dieta rigorosa segurando um prato de feijoada.
Esse silêncio ensurdecedor ganha contornos ainda mais graves quando se registra que a denúncia partiu do jornalista Gil Sobreira, do portal GP1, praticamente o único veículo que se dignou a publicar os fatos, enquanto a mídia tradicional parece vegetar confortavelmente nas contas de publicidade oficial, dependentes de alinhamento político ao Palácio de Karnak. E, por tabela, aos representantes da esquerda local, num modelo em que as polpudas cotas publicitárias parecem pagar bem mais do que a simples divulgação de atos administrativos, comprando silêncio, complacência e conveniência editorial.
Registre-se ainda que nossa reportagem não conseguiu contato com a conselheira Flora Izabel, nem com a assessoria de comunicação do Tribunal de Contas do Estado, tampouco com a Secom do governo, mas deixa desde já assegurado o espaço para que todos os citados possam comentar os fatos ou prestar os esclarecimentos que julgarem necessários, porque transparência não deveria ser favor, mas obrigação de quem cobra tanto da sociedade.
No fim, a política tributária da esquerda brasileira lembra um espelho rachado. De um lado, o discurso inflamado sobre quem deve pagar mais. Do outro, práticas que revelam inadimplência, contradição e desconforto com a própria regra que impõem. O problema não é cobrar impostos, eles são necessários. O problema é cobrar como virtuoso e agir como devedor contumaz. Afinal, em matéria de tributos, o exemplo não deveria vir antes do discurso?
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