
O vídeo é curto, o riso é imediato, mas o constrangimento institucional é proporcionalmente longo. O perfil werbethzoa, no Instagram, acertou em cheio ao transformar em humor aquilo que, na prática, é um problema grave de gestão pública na cidade de Piripiri. Com ironia afiada e timing perfeito, o comunicador expôs uma obra da Prefeitura que parece ter sido pensada ao contrário da lógica, da técnica e, sobretudo, da lei: uma passagem de pedestres e cadeirantes simplesmente bloqueada pelo próprio projeto municipal.
A cena é digna de comédia pastelão, mas o enredo é trágico. A acessibilidade, que deveria ser prioridade absoluta, vira obstáculo físico. A rampa existe, mas não leva a lugar nenhum. É como construir uma ponte que termina no abismo ou uma escada que começa no teto. O riso vem fácil, mas logo dá lugar à pergunta inevitável: a Prefeitura tem engenheiro? E mais, quem foi o engenheiro que assinou o projeto?
Nas redes, o público fez o que o poder público ainda não fez: questionou. Um internauta chegou a oferecer R$ 10 para quem conseguisse citar o nome do responsável técnico. É pouco dinheiro, mas simboliza muito. Não se trata de linchamento virtual, trata-se de cobrança por responsabilidade. Em obras públicas, assinatura não é detalhe burocrático, é compromisso legal, técnico e ético.
O mérito do werbethzoa está justamente aí. Usar o humor como lupa. A gargalhada amplia o alcance, mas a denúncia permanece. E cresce. Cada compartilhamento não é só uma curtida, é um atestado de que algo está errado. A página mostra criatividade, leitura social e uma comunicação direta com o cidadão comum, aquele que paga impostos e espera, no mínimo, que uma calçada funcione como calçada.
Enquanto isso, do outro lado da avenida e do problema, reina o silêncio. Até o momento, nem a prefeita Jôve Oliveira, do PT, nem sua assessoria se manifestaram. Nenhuma nota, nenhuma explicação, nenhuma promessa de correção. O mutismo institucional contrasta com o barulho das redes, que só aumenta. Em política, silêncio raramente é neutro. Muitas vezes soa como desprezo.
E o ponto central não é o vídeo, nem o influencer, nem o meme. É o dinheiro público. O projeto foi pago com recursos do povo de Piripiri. Recursos que deveriam garantir segurança, mobilidade e inclusão, não produzir constrangimento nacional em forma de reels. Transparência não é favor, é obrigação. Explicação pública não é opcional, é dever.
No fim das contas, rir talvez seja mesmo a melhor reação inicial. Não vale a pena chorar. Mas depois do riso, vem a cobrança. Porque cidade não se administra com improviso, engenharia não se faz no “achismo” e acessibilidade não pode ser tratada como detalhe estético. O vídeo viraliza hoje, amanhã será esquecido. Já a obra mal feita fica, e quem paga por ela também.
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