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Piauí CRISE ZOOSSANITÁRIA

A letargia que custa caro: quando o governo prefere reagir em vez de prevenir

A omissão preventiva na gestão Rafael Fonteles e a resposta tardia à peste suína expõem a letargia do Estado

08/01/2026 às 13h38
Por: Douglas Ferreira
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Governador Rafael Fonteles governa apagando incêndio - Foto: Reprodução
Governador Rafael Fonteles governa apagando incêndio - Foto: Reprodução

Quando o governo dorme e a doença avança

 

O governo do Piauí vive uma letargia administrativa que já não passa despercebida — e começa a cobrar seu preço. Ninguém dispõe de bola de cristal, é verdade. Mas no campo da defesa agropecuária, zoonoses são sazonais, previsíveis e exigem ação preventiva, jamais a postura reativa que tem marcado a gestão do governador Rafael Fonteles.

E o mais grave: não foi por falta de aviso. Dentro da própria estrutura do governo, alertas claros foram feitos ainda no ano passado sobre a necessidade de uma ampla campanha de vacinação contra a peste suína, nos mesmos moldes do que ocorreu com a febre aftosa. Um dos principais defensores dessa estratégia foi o secretário de Assistência Técnica e Defesa Agropecuária, Fábio Abreu. O alerta existiu. O diagnóstico também. A decisão política, não.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: por que o governo não agiu quando ainda havia tempo? Por que prefere decretar emergência depois do problema instalado, em vez de planejar, prevenir e proteger a cadeia produtiva? A resposta, até agora, não veio.

A peste suína clássica (PSC) é uma doença viral altamente contagiosa que afeta exclusivamente suínos — silvestres, de subsistência ou de produção industrial. Não representa risco à saúde humana, mas é devastadora do ponto de vista econômico. Provoca febre, manchas na pele, falta de apetite e pode levar à morte dos animais. Sua transmissão ocorre pelo contato direto entre suínos doentes, secreções e objetos contaminados.

Por esse motivo, a PSC é classificada como doença de notificação obrigatória, capaz de gerar prejuízos severos à produção e barreiras comerciais à carne suína, afetando diretamente pequenos criadores e o agronegócio estadual. Ainda assim, o governo só se moveu após a confirmação de um caso no município de Porto, quando então decretou situação de emergência zoossanitária.

Somente depois do problema instalado, o secretário Fábio Abreu voltou a defender publicamente aquilo que já vinha propondo há meses: uma campanha de vacinação ampla, gratuita e coordenada, inclusive com os estados do Ceará e do Maranhão. A lógica é óbvia: doenças não respeitam divisas administrativas. Isoladamente, qualquer ação perde eficácia.

Segundo o secretário, a proposta encaminhada ao Ministério da Agricultura prevê que o criador não arque com custos de vacina nem de aplicação. Tudo estaria dentro de um pacote de proteção sanitária. Uma iniciativa robusta, técnica e responsável. Mas que, inexplicavelmente, ficou na gaveta até a crise bater à porta.

Desde a notificação do caso, a Secretaria de Assistência Técnica e Defesa Agropecuária passou a deslocar equipes, orientar técnicos e oferecer suporte logístico. Medidas necessárias, porém tardias. A pergunta persiste: por que agir apenas quando o dano já começou?

Governar não é apagar incêndios permanentes. Governar é antecipar riscos, planejar cenários e proteger a população — inclusive a população produtiva do campo. A insistência em políticas reativas revela não apenas falha técnica, mas um problema de cultura administrativa.

No caso da peste suína, ainda há tempo de conter danos maiores. Mas a lição fica registrada: a prevenção custa menos, protege mais e evita decretos de emergência que expõem a fragilidade do Estado. No ritmo atual, a letargia do governo pode sair muito mais cara do que qualquer campanha de vacinação.

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