
No Piauí, as coisas são curiosas. Ou melhor, previsíveis. Sob governos petistas, a realidade costuma andar em pista simples, enquanto a propaganda corre em rodovia duplicada, bem sinalizada e… imaginária. A notícia que circula com entusiasmo oficial afirma que o estado vive uma espécie de idade de ouro do asfalto. O Piauí, vejam só, seria líder no Norte e Nordeste em rodovias boas e ótimas, segundo a Confederação Nacional do Transporte. Uma maravilha. Pena que a chuva não lê ranking.
Bastou o inverno piauiense dar as caras para algumas verdades emergirem, literalmente. Estradas recém-“recuperadas” romperam como biscoito molhado. Trechos da PI-140, no Sul do Estado, cederam após chuvas de verão, isolando comunidades e obrigando motoristas a improvisar desvios dignos de trilha off-road. Houve ainda registro de ponte danificada em rodovia estadual, daquelas que transformam o trajeto diário em episódio de reality show: quem passa primeiro, quem fica ilhado e quem reza mais forte.
Enquanto isso, o governo anuncia com voz grave e números generosos: mais de 1.000 km de novas rodovias e 7.300 km recuperados, ao custo de R$ 3,1 bilhões. Parece muito. Impressiona em coletiva. Mas vamos ao detalhe inconveniente, aquele que a propaganda prefere esconder no acostamento. A malha viária estadual tem cerca de 13.350 km. Ou seja, os 1.000 km novos representam algo em torno de 0,8% do total. É como trocar o pneu estepe e anunciar que o carro virou zero quilômetro.
E as estradas “recuperadas”? Muitas já apresentam trincas, buracos, afundamentos e aquele velho conhecido do piauiense: o asfalto que some com a primeira enxurrada. São as famosas estradas sonrisal. Você joga água e… ploft! Dissolvem. Não por acaso, o Estado já protagonizou aberrações técnicas, como rodovia com ciclovia no meio da pista, separando faixas de rolamento. Lembra? Uma ideia tão genial quanto colocar churrasqueira no meio da BR. Felizmente, a tempo, o projeto foi desfeito antes de virar um abatedouro humano.
O mais curioso é o contraste entre o discurso e a vivência do cidadão. Segundo o governo de Rafael Fonteles, o Piauí subiu posições no ranking nacional e ocupa lugar de destaque regional. Mas o ranking da CNT avaliou apenas 1.105 km das rodovias estaduais. Uma amostra pequena diante da realidade extensa e desigual do Estado. É como provar a sobremesa e sair dizendo que o almoço inteiro estava ótimo.
Claro, é verdade que Estados vizinhos como Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte também patinam na infraestrutura viária. Mas estar “menos ruim” que o vizinho não transforma estrada esfarelada em rodovia suíça. Liderar um ranking regional onde quase todos falharam não é exatamente um feito épico. É vencer uma corrida onde metade dos competidores esqueceu de largar.
No fim das contas, o piauiense segue vivendo entre o outdoor e o buraco. Entre o release otimista e a ponte interditada. Entre a estatística elegante e o carro quebrado no acostamento. O governo pode até comemorar números, percentuais e posições. Mas enquanto o asfalto continuar derretendo ao primeiro sinal de chuva, toda essa grandiosidade não passa de maquiagem derretida sob o sol e a água do inverno.
Como se não bastassem os exemplos recentes, o início de 2025 tratou de lembrar, com água até o pescoço, a fragilidade histórica da malha viária estadual. No Sul do Estado, as chuvas castigaram com força e provocaram o transbordamento do Rio Canindé, cujas águas avançaram sobre uma ponte da PI-242, no trecho entre Santo Inácio do Piauí e Wall Ferraz, interrompendo o tráfego e isolando comunidades.
O episódio não foi exceção, mas regra conhecida: com a aproximação do período chuvoso, muitas rodovias estaduais costumam ser inundadas ou simplesmente cortadas pelas águas pluviais. O que revela que, por trás dos rankings e discursos triunfalistas, ainda falta ao Piauí algo básico, estradas capazes de resistir à chuva que todo ano insiste em cair.
No Piauí oficial, as estradas são ótimas. No Piauí real, elas continuam sendo um teste de fé, suspensão e paciência. E contra isso, ranking nenhum segura.
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