
A decisão de acionar o Departamento de Repressao as Acoes Criminosas Organizadas (DRACO) para reforçar as investigações do sequestro do ex-secretário municipal Alessandro Eulálio não é apenas um ato administrativo. É um reconhecimento explícito de que o crime que chocou o Piauí ultrapassa os limites do roubo comum e se insere no território mais perigoso da criminalidade organizada, planejada e reiterada.
O sequestro-relâmpago ocorrido em plena manhã, na zona leste de Teresina, desmonta qualquer discurso de improviso. Antes da invasão da residência, houve a solicitação premeditada de uma corrida por aplicativo, o roubo do veículo e o sequestro do motorista, mantido no porta-malas enquanto o grupo avançava para a segunda etapa do plano. Isso não é impulso. É método. É logística criminosa em funcionamento.
As informações levantadas pela Polícia Civil, sob coordenação do delegado Walter Cunha, revelam um grupo formado por dois homens e uma mulher, todos armados, com divisão clara de funções. Um conduzia o veículo, outro mantinha o controle armado da ação e a mulher, jovem e também armada, participou ativamente da rendição das vítimas. Há, inclusive, a suspeita de que ela seja menor de idade, o que adiciona um componente ainda mais grave ao caso, ao indicar o aliciamento precoce para o crime.
O papel da mulher no grupo desmonta estereótipos antigos. Ela não estava ali como coadjuvante, mas como agente central da intimidação. Esse detalhe reforça uma tendência já conhecida pelas forças de segurança, em que quadrilhas utilizam mulheres e jovens como estratégia para reduzir suspeitas iniciais e aumentar o impacto psicológico sobre as vítimas.
Durante a ação, a família foi feita refém e uma das vítimas foi obrigada a realizar transferências bancárias via aplicativo, totalizando cerca de vinte mil reais. O dado mais perturbador é que a vítima não foi levada a banco ou caixa eletrônico. Tudo foi feito digitalmente, com rapidez e precisão, até que o limite de transferências fosse atingido. Quando o dinheiro acabou, a vítima foi descartada. Fria, objetiva e cruelmente.
É nesse contexto que a entrada do DRACO se torna decisiva. O departamento atua justamente quando há indícios de associação criminosa, reincidência e estrutura organizada. Seu trabalho não se limita à perseguição física dos suspeitos, mas envolve o cruzamento de dados financeiros, análise de vínculos com outras ocorrências semelhantes, mapeamento de rotas e identificação de contas utilizadas como passagem de dinheiro.
Outro ponto central da investigação é o levantamento de imagens de câmeras de segurança, incluindo o uso do Sistema Piaui de Inteligencia Artificial (SPIA). O rastreamento do veículo roubado, a identificação de trajetos e possíveis pontos de apoio podem ser o fio que levará à identificação do grupo. Em crimes dessa natureza, raramente os autores desaparecem sem deixar rastros digitais ou visuais.
O sequestro de Alessandro Eulálio não choca apenas pelo nome da vítima, mas pelo simbolismo do ato. Se um ex-secretário municipal pode ser sequestrado com tamanha facilidade, em plena luz do dia, a mensagem transmitida à sociedade é brutal. Ninguém está fora do alcance. O medo deixa de ser exceção e passa a ser rotina.
A mobilização conjunta do DRACO, da Polícia Militar e das delegacias da área demonstra que o Estado compreendeu a gravidade do episódio. Mas também expõe um dilema maior. A polícia corre atrás de um crime que se adapta mais rápido do que as respostas institucionais. Enquanto o aparato de segurança reage, as quadrilhas avançam, testam limites e refinam métodos.
O caso do sequestro-relâmpago não pode ser tratado como um evento isolado. Ele é sintoma de uma cidade pressionada, de um Estado desafiado e de uma criminalidade que já não se esconde. A entrada do DRACO é necessária, urgente e simbólica. Resta saber se será suficiente para quebrar a sensação de impunidade que alimenta esse tipo de crime.
“Uma das transferências realizadas pela vítima foi destinada a uma conta vinculada ao motorista de aplicativo, porém ele não permaneceu com o valor. Todos os pertences dele foram levados, inclusive cartões bancários, e isso também será investigado com o apoio das instituições financeiras", informaou o delegado, acrescentando que, "as transferências totalizaram um valor próximo a R$ 20 mil. Ainda estamos em fase de oitivas e diligências, mas esse é o montante estimado até o momento. Inclusive, fica o alerta para que as pessoas evitem manter limites elevados de transferência em aplicativos bancários, pois os criminosos tentam extrair o máximo possível".
Mais do que prender culpados, o desafio agora é outro. Mostrar que o território ainda pertence ao Estado e não às quadrilhas. Porque quando o crime age com método e ousadia, a resposta precisa ser ainda mais firme, estratégica e contínua. Caso contrário, o próximo sequestro deixará de chocar. E isso, talvez, seja o sinal mais perigoso de todos.
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