
O que se repete em dezenas de municípios do Maranhão ganhou, em Turilândia, contornos quase didáticos. Primeiro, forma-se uma organização criminosa. Em seguida, assume-se o controle administrativo do município. A partir daí, passa-se a “operar”. No vocabulário das investigações, operar significa desviar dinheiro público de forma sistemática, contínua e organizada. O resultado costuma ser o mesmo: afastamentos, cassações e prisões. Em Turilândia, porém, o volume e a ousadia do esquema elevaram o caso a um novo patamar.
A Operação Tântalo II, conduzida pelo Ministério Público do Maranhão, aponta para um rombo superior a R$ 56 milhões nos cofres públicos do município entre 2021 e 2025. Um desvio tão ostensivo que tornou inevitável a responsabilização penal dos principais agentes políticos da cidade. Foram presos o prefeito Paulo Curió, sua esposa e primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Lima, o marido dela Marlon Serrão, além do contador da prefeitura Wandson Jhonathan Barros.
As investigações indicam que Paulo Curió exercia o papel de líder da organização criminosa, com apoio direto da atual vice-prefeita Tânia Mendes e da ex-vice-prefeita Janaína Lima. O grupo dominava setores estratégicos da administração municipal e utilizava empresas de fachada para simular contratos, fraudar licitações e justificar pagamentos milionários.
O modus operandi era clássico e eficiente. Empresas formalmente regulares, mas sem capacidade operacional real, eram contratadas pela prefeitura. Uma delas, o Posto Turi, pertencente a Marlon Serrão, recebeu mais de R$ 17 milhões em repasses. Parte desse dinheiro era usada para pagar despesas pessoais de agentes políticos, enquanto o restante retornava ao núcleo do poder municipal, em um circuito típico de peculato e lavagem de dinheiro.
A dimensão do esquema explica o alcance da operação. Foram cumpridos 51 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão em diferentes cidades do Maranhão. Além do prefeito e de seus aliados mais próximos, a investigação alcança 20 vereadores, um ex-vereador, servidores públicos, empresários e outros agentes políticos. No caso dos vereadores, as prisões foram convertidas em prisão domiciliar, decisão que não afasta a gravidade das acusações.
Durante as buscas, a polícia apreendeu documentos, equipamentos eletrônicos, registros contábeis e contratos, materiais que agora sustentam a fase mais sensível do processo: o rastreamento financeiro. Até o momento, não há divulgação oficial sobre valores recuperados do montante desviado, o que indica que a maior parte dos recursos ainda pode estar oculta ou pulverizada em operações financeiras complexas.
Os investigados podem responder por organização criminosa, fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Crimes que, somados, desenham um quadro de captura total do Estado municipal por interesses privados, prática que se tornou recorrente em pequenas cidades com baixa capacidade de fiscalização.
O caso de Turilândia não é exceção isolada, mas síntese de um modelo criminoso que se espalhou pelo interior do Maranhão. Prefeituras transformadas em balcões de negócios, Câmaras Municipais cooptadas e recursos públicos tratados como patrimônio privado. Quando a Justiça chega, o estrago já foi feito, e o dinheiro, em grande parte, desapareceu.
Resta saber se o desfecho será diferente desta vez. A pergunta central permanece sem resposta definitiva: quanto dos R$ 56 milhões será efetivamente recuperado. Enquanto isso, Turilândia entra para a lista dos municípios onde o poder público deixou de governar para operar como organização criminosa, com CPF, CNPJ e mandato eletivo.
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