
A declaração do deputado federal Merlong Solano é, em essência, correta e até corajosa. Ao afirmar que “o crime já virou uma macroeconomia no Brasil”, o parlamentar verbaliza aquilo que o cidadão comum sente na pele todos os dias, no trajeto para o trabalho, no comércio sitiado, no medo constante e na evasão bilionária de tributos que drena recursos do Estado. Nesse ponto, mérito reconhecido. O problema começa logo depois, quando se confronta o discurso com a prática política.
Porque a verdade incômoda é esta: Merlong descreve o problema com precisão cirúrgica, mas integra e sustenta um projeto político que o aprofunda. O crime como macroeconomia não brotou do nada. Ele prospera em ambientes de leis brandas, discurso leniente, desencarceramento em massa, enfraquecimento do policiamento ostensivo e uma política de fronteiras frouxa, exatamente as bandeiras históricas do Partido dos Trabalhadores e da esquerda que o elegeu.
A incoerência fica ainda mais gritante quando se observa o comportamento parlamentar. Merlong vota sistematicamente contra projetos que buscam endurecer penas, restringir a ação de facções, ampliar instrumentos de investigação e fortalecer a repressão ao crime organizado. Ao mesmo tempo, alinha-se a pautas que relativizam a criminalidade, defendem a descriminalização das drogas e promovem o discurso do criminoso como “vítima social”. Não é contradição menor, é dissonância estrutural.
O próprio governo que Merlong defende ajuda a explicar essa esquizofrenia política. O presidente da República já declarou que traficantes seriam vítimas dos usuários, criticou operações policiais em áreas dominadas por facções e tratou megaoperações de segurança como excessos do Estado. Some-se a isso a fragilidade na fiscalização das fronteiras, verdadeiras porteiras abertas para armas, drogas e contrabando, e o resultado está dado: o crime organizado se consolida como ator econômico relevante.
Quando o deputado afirma que essa economia paralela movimenta algo entre 15% e 20% do PIB, ele não denuncia apenas um fenômeno externo. Ele expõe, ainda que involuntariamente, o fracasso da política de segurança pública do campo ideológico ao qual pertence. Reconhecer o diagnóstico sem assumir a responsabilidade pelas causas soa menos como coragem e mais como retórica conveniente.
Por isso, a fala de Merlong Solano parece estéril, quando não eleitoreira. Ele reconhece o incêndio, descreve o tamanho das chamas, mas continua jogando gasolina no fogo ao apoiar um projeto político que enfraquece o Estado frente às organizações criminosas. Fica difícil interpretar sua declaração como algo além de um discurso solto, desconectado do próprio histórico de votos e alianças.
No fim, sobra uma pergunta incômoda: de que adianta admitir que o crime virou uma macroeconomia se, na prática, o parlamentar segue votando para garantir que ela continue crescendo? Reconhecer o problema é o primeiro passo. O segundo, e decisivo, é não ser parte dele.
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