
O litoral do Piauí é curto, pequeno, quase tímido diante da imensidão de praias brasileiras. São apenas 64 quilômetros de extensão, mas que carregam a mesma força, os mesmos riscos e, infelizmente, as mesmas tragédias que marcam regiões muito maiores. É um litoral bonito, de águas mornas, paisagens encantadoras e ainda muito preservado, mas também traiçoeiro, sobretudo para quem o conhece apenas de fotografias ou relatos.
A morte dos jovens Vinicius Pereira Silva, de 25 anos, e João Pedro de Araújo Silva, de 20, ambos paulistas, amigos de viagem, companheiros de excursão, é mais do que um acidente. É um alerta. Um sinal de que algo está profundamente errado na forma como estamos lidando com o turismo, com a prevenção, com a segurança e com a educação sobre riscos marítimos.
Vinicius e João Pedro chegaram ao litoral por volta das 7h, vindos de uma excursão que partiu de Valença do Piauí. Jovens, cheios de expectativa, provavelmente ansiosos para encontrar o mar ainda pela manhã. Mas o mar do Peito de Moça não é um mar qualquer. Tem fortes correntes de retorno, mudanças bruscas de profundidade e uma movimentação que surpreende até moradores experientes. Um deles começou a se afogar. O outro, movido pelo instinto mais humano que existe, salvar um amigo, entrou na água e foi engolido pela mesma força.
E aqui surgem as perguntas incômodas, aquelas que sempre chegam tarde demais:
Por que tantas pessoas continuam morrendo no litoral piauiense?
Por que o número de afogamentos cresce, mesmo com alertas constantes?
O que falta para que o Estado trate essa pauta como prioridade?
É impossível olhar para a tragédia sem perceber que existe um padrão: turistas que desconhecem os riscos, praias sem sinalização adequada, ausência de equipes suficientes de guarda-vidas, falta de campanhas educativas contínuas, guias despreparados e, em muitos casos, uma perigosa sensação de que “o mar daqui é tranquilo”. Não é. Peito de Moça é uma das praias mais lindas e mais perigosas do Piauí.
Vinicius e João Pedro foram retirados do mar por moradores, não por equipes oficiais. Foram socorridos por quem estava por perto, como é quase sempre. E, mesmo com as tentativas de reanimação dos bombeiros, nada pôde ser feito. Eles chegaram ao litoral para um dia de lazer e não voltaram vivos. Dois jovens, dois sonhos interrompidos, duas famílias destruídas. Duas histórias tragicamente parecidas com tantas outras esquecidas no noticiário.
Não basta lamentar, é preciso agir.
O litoral piauiense não pode continuar sendo um cartão-postal que cobra vidas.
O turismo só existe se houver segurança.
A beleza só vale quando não engole seus visitantes.
A morte de Vinicius e João Pedro precisa provocar mudanças.
Porque tragédias como essa não são apenas acidentes:
são falhas anunciadas.
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