
O narcotráfico, no Piauí e no Brasil, parece um poço sem fundo, e é. A apreensão de mais de 700 quilos de cocaína e outras drogas na planície litorânea impressiona pela cifra, mas representa muito pouco diante da capacidade logística e financeira do Comando Vermelho, hoje a maior força criminosa em atuação no Estado. A droga avaliada em R$ 60 milhões não altera o cotidiano das bocas, das biqueiras ou das rotas clandestinas. Nada falta, nada encarece, nada muda. O mercado ilícito opera com uma estabilidade que o setor público só poderia invejar.
Por mais que se retire quase uma tonelada de entorpecentes das ruas, a verdade é incômoda: a apreensão não provoca inflação no tráfico, não desorganiza as operações da facção e tampouco afeta o abastecimento. Um ou outro traficante será cobrado pela perda, poderá sofrer retaliação, mas o sistema criminoso, amplo, diversificado, subterrâneo, se reorganiza rapidamente. Se apreensão de drogas resolvesse, o Piauí já teria derrotado o CV há muito tempo.
Nada disso significa que a polícia deva recuar. Ao contrário: as operações precisam continuar, com mais inteligência, mais integração e mais ousadia. A ação conjunta entre PM, DRACO, DFHT e Secretaria de Segurança é crucial. Mesmo que não destrua o tráfico, produz efeitos importantes: afeta fluxos financeiros, retira criminosos das ruas, sequestra propriedades, bloqueia contas e desarticula engrenagens. O Estado, quando age de forma coordenada, incomoda o crime, e isso já tem valor.
A megaoperação no litoral, que desbaratou dois centros de distribuição e revelou um laboratório clandestino de preparo e padronização de drogas, foi um raro momento de acerto estratégico. As equipes identificaram desde o núcleo de manipulação na zona rural até o ponto urbano que abastecia Parnaíba e cidades vizinhas. Essa cadeia completa, exposta, mostra que o crime organizado opera com sofisticação industrial, e que a polícia, quando quer, consegue enxergar além do varejo.
No segundo dia de ações, a apreensão de 300 quilos de cocaína enterrada em tambores reforçou o impacto imediato da ofensiva: uma tonelada de drogas retirada de circulação em 48 horas. É, sim, um golpe relevante, como destacam os delegados Ayslan Magalhães e Charles Pessoa. Demonstra integração, preparo, trabalho técnico e capacidade de resposta. É o Estado mostrando que sabe onde e como bater.
Mas o ponto crucial permanece: apreender droga não acaba com o tráfico. Não no Piauí, não no Brasil, não em lugar algum. O que reduz o poder das facções é romper fluxos financeiros, quebrar conexões políticas, cortar rotas logísticas, atacar lideranças e destruir a infraestrutura econômica do crime. Enquanto isso não acontecer, seguiremos celebrando toneladas apreendidas ao mesmo tempo em que toneladas continuam a entrar. Tudo permanece como dantes na terra de Abrantes, e essa é talvez a mais amarga constatação.
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