
O governo do Piauí sorri diante dos gráficos coloridos que mostram a redução dos Crimes Violentos Letais Intencionais. E, de fato, os números caíram. Mas enquanto o governador exibe percentuais em coletivas, o piauiense continua tropeçando em corpos nas ruas, ouvindo rajadas de madrugada e convivendo com facções que se espalham como mato em época de inverno. A pergunta que ecoa é simples: como se concilia o alívio estatístico com a tragédia cotidiana? A matemática da segurança pública nem sempre encontra a vida real.
As operações policiais são quase diárias. Todo santo dia a Secretaria de Segurança exibe fotos de armas apreendidas, drogas confiscadas e faccionados algemados. É um teatro de guerra permanente. Mas, como num pesadelo cíclico, no dia seguinte surgem novos criminosos, novas biqueiras, novos pontos de venda e mais mortes nas periferias. A impressão do cidadão é outra: os traficantes se multiplicam como se o chão tivesse fertilizante para bandido.
É nesse contraste que surge a dúvida mais incômoda: se a polícia prende tanto, por que a sensação é de que nada muda? A resposta, embora desconfortável, é inevitável: a segurança pública piauiense está colhendo efeitos rápidos, porém superficiais. As grandes operações pegam “lambaris”, enquanto os “tubarões” continuam ditando regras nos bairros, mandando matar à distância, lavando dinheiro em empresas suspeitas e coordenando rotas de tráfico que passam ilesas pelos olhos do Estado.
Enquanto isso, o interior vive seu próprio inferno silencioso. Municípios que nunca tinham visto o crime organizado hoje convivem com execuções, ameaças, dívidas impostas pelas facções e um controle territorial que lembra o que aconteceu no Ceará. O Piauí, é verdade, ainda não chegou ao nível de expulsão de moradores, mas a estrada é a mesma e o destino é previsível se o Estado continuar tratando sintomas e não a doença.
Não se combate facção apenas com viatura e camisa preta. O governo sabe disso, mas finge não saber. Não existe país ou Estado que venceu o narcotráfico só com polícia. Segurança é trincheira tripla: polícia forte, justiça eficiente e política social que corte o fluxo de soldados para o crime. No Piauí, a polícia até se esforça, mas a Justiça é lenta, as prisões são escolas do crime e a política social virou uma colcha de retalhos improvisada.
E aqui entra outro ponto crucial: o Estado continua alimentando o próprio monstro. Programas de transferência de renda, essenciais no combate à miséria, acabam, na prática, irrigando o caixa do tráfico. Em diversas comunidades, uma parte das bolsas públicas vira droga, que vira lucro, que vira arma, que vira poder. É o círculo perfeito da retroalimentação da violência.
Falta educação, e não apenas no discurso. Falta ensino profissionalizante que abra portas reais para os jovens. Falta qualificação que dê alternativa além do tráfico. Falta emprego que tire o adolescente da esquina onde o PCC, o Comando Vermelho e as facções locais recrutam com salário melhor que o mercado e ascensão mais rápida que qualquer curso técnico. O governo fala em “Piauí da inovação”, mas esquece que inovação sem inclusão é só slogan.
Enquanto isso, bairros inteiros vivem sob toque de recolher informal. A polícia entra, prende, apreende, mas sai, e a facção volta, compra silêncio, impõe medo, dita normas. É a mesma lógica de sempre: o Estado aparece como visitante; a facção, como moradora permanente. Se o governo não quebrar esse ciclo, continuará enxugando gelo com guindaste.
O discurso oficial insiste que os números provam avanço. E provam, sim, mas provam apenas que matar ficou menos frequente, não que o crime perdeu força. Quando a facção domina território, não precisa matar tanto. Controlar gera lucro. Lucro gera poder. Poder gera estabilidade. A queda nos homicídios pode ser, paradoxalmente, o sinal de que as facções estabilizaram seus negócios, não que foram derrotadas.
O Piauí está diante de um dilema: comemorar a queda da violência letal é justo; acreditar que a guerra está vencida é ingenuidade. Os números ajudam, mas não contam a história toda. O que define o futuro não é quantas mortes caíram, mas quantos jovens o Estado consegue tirar da linha de recrutamento do crime. E, até agora, essa batalha o governo não venceu.
Com 2026 se aproximando, a segurança pública promete dominar palanques e debates. Cada candidato vai vender uma versão: uns dirão que o Piauí vive seu melhor momento, outros que estamos à beira do colapso. A verdade está no meio, mas pende mais para o lado do perigo. Porque até que as operações parem de enxugar gelo, até que o Estado vença a facção também no social, no econômico e no educacional, o piauiense seguirá vivendo entre duas estatísticas: a que o governo comemora e a que aparece, sangrando, na porta de casa.
Apesar de todos os tropeços administrativos do governo Rafael Fonteles, é preciso reconhecer, sem medo de parecer elogioso demais, que a política de segurança que recupera celulares roubados e os devolve aos legítimos donos é, de fato, um ponto fora da curva no Brasil. Funciona, é organizada e virou referência.
Mas aí vem o choque com a realidade: essa mesma política exemplar ainda não conseguiu produzir o efeito que realmente importa para o piauiense comum, diminuir o roubo de celulares. A sensação é quase surreal: o Estado devolve o aparelho, mas o cidadão continua sem coragem de sair de casa com ele.
Os assaltantes seguem firmes em sua rotina de caça, espalhados por esquinas, becos e praças, como se o Piauí tivesse virado um grande safári urbano. E o pior: eles não se limitam a levar o telefone. Se for preciso, matam, transformando o simples ato de checar mensagens na rua num risco calculado de vida.
Resta saber se, em 2026, os candidatos terão coragem de enfrentar o problema como ele realmente é, ou se repetir a velha fórmula de discursos fortes, operações cinematográficas e nenhum plano capaz de impedir que o crime recrute mais rápido do que o Estado salva.
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