
Uma coisa é o Piauí acalentar, desde o século XIX, o sonho quase romântico de ter um porto marítimo digno de cartão-postal imperial. Outra coisa, bem mais teimosa, é a geografia. E a geografia, como sabemos, não se curva a discurso político nem a marketing estatal, a “barra” do Rio Igaraçu não tem vocação para navios, no máximo, tolera embarcações "toque-toque", ou as que não exijam profundidade, como as já famosas… chatas. Mas o governo insiste em vender como porto aquilo que geólogos, marinheiros e qualquer pessoa com noções básicas de maré chamariam de “entreposto pesqueiro vitaminado”.
O mais curioso, ou trágico, depende do humor do leitor, é que a mídia local abraçou o roteiro oficial com entusiasmo digno de novela global, bancada com verba oficial. Anuncia-se “navio atracado” quando, na verdade, o que repousa no píer é uma chata, embarcação rasa, modesta, que entraria facilmente no Parnaíba, chegaria a Tereisna e subiria pelo Rio Poti e, se desse vontade, estacionaria na Poticabana sem drama. Mas no Piauí, chata virou navio, e cais virou porto. A propaganda venceu a lógica, por enquanto.
O Porto Piauí, com seus 150 metros de cais e 16 cabeços de amarração e um calado que não chega nem perto dos 11,5 metros exigidos por navios de médio porte (5 metors na maré baixa e 7 na alta) transformou-se em uma ficção de alto orçamento. O governo promete grandeza oceânica, mas entrega hidrografia fluvial. O que se vê é um equipamento que, de porto mesmo, tem o nome e a pintura nova. E, de resto, acumula problemas estruturais, ambientais, financeiros e de credibilidade.
Pergunta inevitável: quanto já foi gasto nessa epopeia? Não se sabe. Não por incapacidade, mas por falta de transparência. O que existe são fragmentos: R$ 200 milhões na fase inicial, previsão de mais R$ 400 milhões para 2025/2026, e discursos festivos que falam em “mais de R$ 2 bilhões no governo atual”. O pacote completo até 2030? Mais de R$ 7 bilhões, segundo o próprio governo. Mas gastos executados mesmo, auditados, confirmados… aí já é pedir demais.
A matemática da obra é tão nebulosa quanto o calado do porto, fala-se em bilhões, mas não se explica se são promessas, autorizações, intenções, convênios ou apenas fé governamental. Enquanto isso, o porto avança, mesmo sem a profundidade necessária, sem a transparência esperada e sem a viabilidade comprovada. É a obra que assoreia o bom senso e os cofres públicos.
E quando o governo não faz perguntas difíceis, quem faz é o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado. Ambos recomendaram suspender a audiência pública por falhas gritantes no processo ambiental. Falhas tão explícitas que fariam corar qualquer órgão sério, ausência do EIA completo, divulgação incompleta, tempo insuficiente para os afetados analisarem os impactos, ausência de publicação no Diário Oficial. É o famoso “processo conduzido no escuro”, mas com risadas nervosas de quem torce para ninguém notar.
O mais grave, o litoral piauiense, pequeno, frágil e de biodiversidade altíssima, está sendo tratado como se fosse terreno industrial à beira de rodovia. A própria documentação reconhece impacto ambiental “Extremamente Alto”. Mas, para o Estado, esse detalhe parece ser apenas uma nota de rodapé incômoda, facilmente ignorável. O discurso do progresso segue firme, mesmo se construído sobre manguezais, comunidades tradicionais e ecossistemas vulneráveis.
As comunidades pesqueiras, que deveriam ser as primeiras a serem ouvidas, foram tratadas como figurantes. Reclamações sobre falta de informação, pressa, ausência do EIA, documentação incompleta e dificuldade de acesso viraram paisagem. O governo pede confiança, o povo pede transparência. E o conflito segue como maré, ora sobe, ora desce, mas nunca desaparece.
Enquanto isso, o governador Rafael Fonteles conduz o Porto Piauí como se fosse o grande legado do século, transformando a estatal em sociedade anônima e anunciando bilhões como quem anuncia inauguração de praça ou calçamento em Guaribas ou Acauã. O problema é que, sem o devido licenciamento, sem consulta adequada às comunidades e sem estudos completos, o projeto parece mais um salto no escuro do que uma política de Estado.
A recomendação do MPF e da DPE não é mero detalhe técnico, é um freio institucional diante de uma pressa injustificada. Adiar a audiência pública, publicar corretamente os documentos, disponibilizar o EIA completo, tudo isso deveria ser o mínimo. Mas no Piauí, parece ser pedido demais em um projeto que exige 7 bilhões de reais e altera ecossistemas inteiros.
O litoral piauiense, pequeno em extensão, gigante em significado, não pode ser dobrado por decreto. É preciso informação, debate, transparência, cuidado e respeito às comunidades. Não se constrói porto pisando nas pessoas que vivem do mar. E muito menos se constrói porto onde o mar, teimosamente, não quer existir para navios.
No fim, a pergunta persiste, o Porto Piauí é um projeto de desenvolvimento ou um monumento ao autoengano oficial? A resposta ainda não está no cais. Mas a chata atracada, essa sim, fala por si, o que temos ali é o símbolo perfeito do que o governo chama de porto, e do que a realidade insiste em chamar de outra coisa.
Se o Piauí terá um porto de verdade um dia, ninguém sabe. Mas que essa novela ainda vai render muitos capítulos, reportagens e votos dos incautos, ah, isso vai. Porque sonho todo mundo tem. Já calado suficiente para navios… aí é outra história.
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