
A partir desta terça-feira (2), o piauiense acorda com um presente nada desejado: a conta de luz ficará 13,28% mais cara. Não é apenas mais um reajuste, é um golpe direto no orçamento de um estado onde o salário médio do trabalhador não acompanha, nem de longe, a voracidade das tarifas públicas. O aumento, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e aplicado pela Equatorial Piauí, atinge mais de 1,5 milhão de consumidores. E, apesar do esforço oficial para enquadrar a medida como um “reajuste técnico”, a verdade é bem mais incômoda: não se trata apenas de correção da inflação, mas da soma de distorções históricas, falhas regulatórias e um ICMS que pesa como chumbo na conta de luz.
O governo, a Aneel e a concessionária tentam explicar que o reajuste de 13,57%, média geral aprovada, seria resultado dos custos de compra, transmissão e distribuição de energia. Seria. Mas basta olhar os números para perceber que há algo fora do eixo. A inflação acumulada não chega nem perto desse percentual, o que desmonta a narrativa de que o aumento reflete apenas a variação de preços da economia. Na prática, o consumidor está pagando hoje a conta de desequilíbrios tarifários acumulados ao longo dos anos, decisões regulatórias mal calibradas e perdas que jamais deveriam ser repassadas ao usuário final.
A composição da tarifa escancara o peso dos impostos, especialmente do ICMS, que funciona como um amplificador silencioso de qualquer reajuste. Quando a base tarifária sobe, o imposto sobe junto. E sobe muito. No Piauí, onde o ICMS sobre energia é historicamente elevado, o impacto é ainda mais devastador. Ou seja, quando o reajuste é anunciado como “13,28%”, a cobrança efetiva no bolso pode ser ainda maior. E isso a Aneel não destaca, a Equatorial não comenta e o governo prefere não ressaltar.
Mas como se chegou exatamente a este percentual? O cálculo da Aneel inclui custos de transmissão, encargos setoriais, subsídios cruzados e componentes financeiros acumulados de ciclos tarifários anteriores. Parte dessa conta é resultado de políticas públicas nacionais que oneram o sistema elétrico e são repassadas ao consumidor sem transparência suficiente. Outra parte é consequência das próprias distribuidoras, que repassam perdas não técnicas, ineficiências operacionais e custos internos que, em tese, deveriam ser corrigidos pela gestão, não pelo cliente.
No caso piauiense, a Equatorial tenta justificar a alta argumentando que precisa manter os investimentos para melhorar a rede. O problema é que essa promessa já foi feita inúmeras vezes, enquanto o consumidor segue enfrentando quedas constantes de energia, oscilações, equipamentos queimados e atendimento precário. O discurso de “melhoria do serviço” não se sustenta quando a qualidade entregue não acompanha o preço cobrado.
O reajuste expõe ainda outro ponto sensível: o modelo de regulação. A Aneel, criada para equilibrar interesses, parece cada vez mais inclinada a garantir a saúde financeira das distribuidoras, enquanto o consumidor fica em último plano. O aumento de 13% em pleno mês de dezembro, às vésperas das festas e do período de maior consumo doméstico, soa quase como uma ironia burocrática, uma decisão tecnicamente correta no papel, mas socialmente cruel no mundo real.
No fim das contas, o piauiense paga mais uma vez a fatura de um sistema caro, pouco transparente e incapaz de entregar segurança energética compatível com o que cobra. O reajuste não é apenas alto, é revelador. Revela a fragilidade de uma estrutura que depende de aumentos sucessivos, de uma carga tributária sufocante e de um modelo que prefere proteger empresas antes de proteger famílias. E revela, principalmente, que sem coragem política para enfrentar os verdadeiros vilões da tarifa, o consumidor continuará no escuro — pagando caro por uma energia que nem sempre chega e quase nunca melhora.
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