
Jimmy Cliff não foi apenas um cantor, compositor ou ator. Ele foi uma força espiritual, um sopro de luz que atravessou Jamaica, Caribe, África, Europa e, sobretudo, a América Latina, onde sua música encontrou um exílio afetivo e um trono cultural. Sua morte, aos 81 anos, não encerra um ciclo, apenas devolve ao infinito a voz que já soava maior que a própria vida.
Cliff faleceu após uma convulsão seguida de pneumonia, segundo informou sua esposa Latifa. Notícia dura, difícil de aceitar. Como dizer adeus a quem ensinou o mundo a dançar com consciência, a resistir com doçura, a acreditar que atravessar rios era possível? Como despedir-se de alguém que, ao cantar, sempre pareceu mais vivo que todos nós?
Se o reggae tem um rei, esse rei é Jimmy Cliff. Não por título oficial, mas por mérito artístico, histórico e emocional.
Antes dele, o reggae era Jamaica. Depois dele, tornou-se planeta.
Cliff abriu a porta que Bob Marley atravessaria logo depois. Foi ele quem multiculturalizou as batidas, quem apresentou ao mundo as narrativas de seu povo, quem transformou luta em poesia e poesia em hino. The Harder They Come (1972), filme e trilha sonora, foi uma revolução estética e política. A partir dali, o reggae deixou de ser local, tornou-se global, intercontinental, traduzido em dezenas de idiomas sem perder o sotaque da alma.
Jimmy Cliff não apenas cantava reggae. Ele consagrava o reggae.
Na América Latina, Cliff foi muito mais que um astro estrangeiro. Ele se tornou um irmão cultural. Sua doçura melódica, seu carisma místico, suas letras sobre resistência, fé e superação encontraram eco nas dores e nas esperanças do continente.
Artistas latinos o reverenciam como um dos pilares da musicalidade caribenha. Suas canções tocaram rádios, festas, carnavais, praias, bailes e corações. Ele fez a ponte entre Jamaica e América Latina, uma ponte de som, afeto e espiritualidade.
No Brasil, porém, Jimmy Cliff não foi apenas amado. Foi adotado.
Poucos países abraçaram o reggae como o Brasil. E nenhum outro lugar o reverenciou como São Luís do Maranhão, a nossa Jamaica brasileira. Ali, o reggae não é só música: é identidade, crença, pulsação, orgulho. É corpo, é alma, é pertencimento.
Na "Ilha do Amor", onde caixas de som fazem o chão vibrar e onde se dança o reggae juntinho, o nome Jimmy Cliff ecoa como se fosse de casa. O ludovicense cresceu embalado por sua voz, por suas melodias, por sua mística. Nas praças, nos bares, nas radiolas, nas praias do Olho D’Água e do Araçagy, no Reviver, nos bailes de vinil, Cliff é onipresente.
Seu som é tão familiar ao Maranhão que parece ter sido plantado no sangue de quem nasce sob o sol dessa ilha encantada.
Jimmy Cliff deixa um legado que nenhum tempo irá corroer:
Universalizou o reggae, tornando-o patrimônio cultural global.
Influenciou gerações, de Jamaica ao Brasil, de África à América Latina.
Elevou o cinema jamaicano, tornando The Harder They Come um clássico.
Compôs hinos eternos, como Reggae Night, Many Rivers to Cross, You Can Get It If You Really Want.
Trouxe espiritualidade, carisma e humanidade a um ritmo que fala de dor, amor e resistência.
Cliff não foi apenas um artista. Foi uma energia.
Um espírito de luz. Um poeta das ruas, dos becos, das praias, da vida real.
Jimmy Cliff se vai, mas o reggae que ele forjou continua aqui, pulsando, vibrando, iluminando.
Onde houver um tambor, uma caixa de som, uma radiola de reggae, um coração ferido, um corpo que dança, uma alma que resiste… Jimmy Cliff estará vivo.
Porque reis não morrem. Reis viram eternidade. E Cliff vive!
ESCOLA DO RECIFE Tobias Barreto de Menezes: o jurista que revolucionou o pensamento jurídico brasileiro
JUSTIÇA DO TRABALHO Maria Suzete Monte Diógenes: uma vida dedicada à Justiça, ao conhecimento e ao serviço público
REFLEXÃO Robôs ou enxadas? O futuro que estamos deixando para nossos jovens Mín. 23° Máx. 32°