
Num Piauí onde a cada amanhecer a polícia parece descobrir um novo braço do crime no litoral, a operação que desmontou um grupo de influencers do “jogo do tigrinho” não surpreendeu. O que surpreende, talvez, é a ousadia. Ou a cara de pau. Depende do ponto de vista.
O Ministério Público e a Polícia Civil miraram não apenas perfis que ostentavam uma vida de luxo, viagens e carros turbinados, mas um esquema altamente lucrativo, fino na estética e vulgar na prática: atrair seguidores pobres e jovens em busca de “liberdade financeira” para plataformas de apostas ilegais, sorteios clandestinos e rifas fantasmas.
Não é novidade - é apenas o crime em versão influencer.
Nada muito complexo.
Eles não precisavam de armas, só de um bom ring light.
Os investigados, entre eles Sarah Brenna, o marido A.S.H.A.S., o influenciador Vítor Mídia e os nomes identificados como L.M.B. e L.C.M.J., usavam perfis nas redes sociais para fazer o papel de isca. Prometiam prêmios fáceis, dinheiro rápido, status e aquele velho “vem comigo que eu te ensino o caminho”.
A real trilha do dinheiro, no entanto, era outra.
chamar seguidores para plataformas de jogos ilegais;
receber comissões por cada novo jogador indicado;
usar contas digitais e “empresas de fachada” para circular valores sem levantar suspeitas;
pulverizar depósitos para mascarar a origem dos recursos;
ostentar muito - porque ostentação dá credibilidade aos olhos dos ingênuos.
E funcionou. Funcionou tão bem que gerou mais de R$ 5 milhões em movimentações suspeitas.
Os relatórios financeiros mostram uma coreografia organizada, onde ninguém dançava fora do ritmo:
R$ 213.606,60 - em nome de L.M.B.
R$ 1.311.784,32 - movimentados por Sarah Brenna
R$ 1.664.582,01 - em contas do marido
R$ 637.783,14 - ligados a L.C.M.J.
R$ 1.173.117,64 - de Vítor Mídia
Este último merece destaque.
Mais de 3 mil pessoas enviaram depósitos entre R$ 0,02 e R$ 20,00, a assinatura clássica de rifas clandestinas e sorteios ilegais. É o crime adaptado ao século XXI: pulverizado, digital, silencioso… e altamente lucrativo.
A cada operação policial, fica mais evidente: o crime no Piauí deixou de ser uma presença ocasional para se tornar uma infraestrutura paralela, espalhada pelas cidades e travestida de diferentes atividades.
Quem não está lavando dinheiro para facção, lava para jogo ilegal. Quem não está no tráfico, está na “riva”, no “sorteio”, na “aposta esportiva turbinada”, ou, como agora, no “tigrinho” embalado com marketing digital.
A descentralização é tamanha que hoje o crime tem influenciadores, gestores de tráfego, publiposts e engajamento pago. É o capitalismo do ilícito funcionando a pleno vapor.
Na ofensiva, foram levados:
celulares,
notebooks,
documentos,
mídias eletrônicas,
veículos de luxo.
Tudo será periciado para rastrear a teia de contas, carteiras digitais e supostos “investimentos”.
Além disso, tudo o que tinham nas contas, ou acreditavam ter, foi bloqueado por ordem judicial.
A investigação também mira o estrago causado nas vítimas.
Não são apenas números, são gente real, muitas vezes pobre, que acreditou em promessas de enriquecimento rápido e colocou dinheiro que não podia perder.
Influencers exibem carros; seguidores perdem salário.
Influencers filmam mansões; seguidores parcelam boletos.
A equação é velha, só mudou o cenário.
Os envolvidos podem responder por:
organização criminosa,
lavagem de dinheiro,
estelionato,
exploração de jogos ilegais.
O inquérito continua. E, como no Piauí o crime parece um bordado sem fim, novas prisões e diligências são prováveis.
O caso revela um padrão perigoso:
o crime organizado encontrou nas redes sociais sua nova vitrine e nos influencers, seus novos vendedores ambulantes.
Uma versão digital da velha malandragem brasileira, só que mais cara, mais profissional e mais devastadora.
E, ao que tudo indica, o tigre não está preso.
Ele está solto, lucrando, e esperando o próximo influencer para alimentá-lo.
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