Domingo, 28 de Junho de 2026
25°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Polícia LAVAGEM DE DINHEIRO

Operação Carbono Oculto 86: silêncio, negação e contradições do empresário Danillo Coelho

Apontado como um dos cérebros financeiros do PCC no Piauí, o dono da Rede HD nega envolvimento, mas não explica as movimentações milionárias, o golpe da “bomba baixa” e o rastro de empresas de fachada que alimentam um esquema de lavagem de dinheiro sem precedentes

06/11/2025 às 19h01 Atualizada em 06/11/2025 às 19h30
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Empresário Danilo Coelho e esposa na chegada à sede do Draco - Foto: Reprodução
Empresário Danilo Coelho e esposa na chegada à sede do Draco - Foto: Reprodução

A tarde desta quinta-feira (06) marcou um novo capítulo na Operação Carbono Oculto 86, com a chegada do empresário Danillo Coelho de Sousa, dono da Rede de Postos HD, e de sua esposa, Thayres Leite Moura, à sede do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), em Teresina. O clima era tenso. Jornalistas se aglomeravam na porta do órgão, à espera de respostas sobre as acusações que pesam contra o casal. Mas o que se ouviu, mais uma vez, foi o silêncio ensaiado e o velho discurso de “perseguição e injustiça”.

Danillo, com semblante fechado e assessores tentando controlar o caos, manteve-se evasivo ao ser questionado sobre a ligação da Rede HD com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Limitou-se a dizer que “não tem nada a ver com facção nenhuma” e que sua empresa “atua dentro da lei”. Um discurso de conveniência, típico de quem tenta apagar o incêndio com gasolina — combustível que, ironicamente, é o centro do escândalo. Nenhuma palavra convincente, nenhuma explicação plausível sobre as movimentações financeiras que a polícia classifica como parte de um “sofisticado sistema de lavagem de dinheiro”.

O delegado Laércio Evangelista, coordenador do DRACO, foi taxativo: “O grupo investigado é o braço financeiro do PCC no Piauí”.

E não é pouca coisa. Segundo ele, a rede de Danillo e seu sócio Haran Santhiago Girão Sampaio operava um labirinto de 70 empresas — entre CNPJs de fachada, fundos de investimento e fintechs — criadas para mascarar capitais do crime organizado. Tudo articulado com o mesmo profissionalismo que o crime aprendeu com o colarinho branco. É o PCC de gravata e planilha, o crime travestido de empreendedorismo.

A Rede HD, conforme as investigações, também está no centro de outro crime: o golpe da “bomba baixa”, fraude que consiste em vender menos combustível do que o medido nas bombas. Milhares de consumidores teriam sido lesados em silêncio, pagando por um litro de gasolina e recebendo bem menos.

Quando confrontado, Danillo limitou-se a dizer que “não sabia de nada disso” e que “se algo ocorreu, foi sem o seu conhecimento”. Difícil acreditar que o dono de uma rede milionária não saiba o que acontece nos próprios postos — a não ser, é claro, que prefira fingir.

Danilo Coelho e esposa na sede do Draco - Foto: Reprodução

Mas o problema vai muito além do golpe contra o consumidor. O que as autoridades revelam é um sistema empresarial montado para lavar dinheiro do tráfico, do roubo e da extorsão. A rede de postos funcionava como um funil: o dinheiro sujo entrava disfarçado de lucro limpo, passava por fintechs e fundos, e reaparecia como patrimônio legítimo. “Carbono Oculto” não é um nome qualquer — é uma metáfora cruel para o dinheiro que queima silenciosamente a moral do país.

Durante o interrogatório, Danillo Coelho tentou se vitimizar, afirmando ser alvo de “armação política” e de “perseguição por concorrentes”. Um roteiro previsível, que ignora as dezenas de documentos, extratos e comunicações bancárias rastreadas pela investigação. Tudo indica que a Rede HD foi peça-chave em uma engrenagem bilionária do crime financeiro no Nordeste, com ramificações no Maranhão e no Tocantins.

Enquanto o empresário jura inocência, a Polícia Civil do Piauí cumpre mandados de busca, apreende computadores, celulares e valores em espécie — provas que falam por si. O que não se ouviu de Danillo, até o momento, foi um único argumento sólido para desmontar o elo entre sua fortuna e o dinheiro do PCC. A estratégia parece ser ganhar tempo, enquanto o rastro digital faz o que ele se recusa a fazer: falar.

A apreensão de seu passaporte, determinada pela Justiça, foi mais do que um gesto simbólico. É um sinal de que a impunidade, antes garantida pelo poder econômico, começa a perder validade. Não se trata apenas de um empresário sob investigação — trata-se de um sistema inteiro de corrupção e lavagem, sustentado por marcas conhecidas, políticos influentes e contas gordas em paraísos fiscais.

A Operação Carbono Oculto 86 expõe a face menos glamourosa do capitalismo brasileiro: aquela em que o lucro nasce da fraude, a prosperidade vem do crime e o sucesso se mede pela capacidade de escapar da lei. Danillo Coelho pode tentar limpar sua imagem, mas dificilmente conseguirá apagar as digitais do PCC deixadas nas bombas, nas planilhas e nos bastidores do poder.

Nossa reportagem não conseguiu contato com os dois empresários ou suas defesas. Entretanto asseguramos desde já espaço no Gazeta Hora1 para que possam apresentar suas defesas e esclarecimentos sobre o envolvimento dos dois nas investigações da Operação Carbono Oculto.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários