
A tarde desta quinta-feira (06) marcou um novo capítulo na Operação Carbono Oculto 86, com a chegada do empresário Danillo Coelho de Sousa, dono da Rede de Postos HD, e de sua esposa, Thayres Leite Moura, à sede do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), em Teresina. O clima era tenso. Jornalistas se aglomeravam na porta do órgão, à espera de respostas sobre as acusações que pesam contra o casal. Mas o que se ouviu, mais uma vez, foi o silêncio ensaiado e o velho discurso de “perseguição e injustiça”.
Danillo, com semblante fechado e assessores tentando controlar o caos, manteve-se evasivo ao ser questionado sobre a ligação da Rede HD com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Limitou-se a dizer que “não tem nada a ver com facção nenhuma” e que sua empresa “atua dentro da lei”. Um discurso de conveniência, típico de quem tenta apagar o incêndio com gasolina — combustível que, ironicamente, é o centro do escândalo. Nenhuma palavra convincente, nenhuma explicação plausível sobre as movimentações financeiras que a polícia classifica como parte de um “sofisticado sistema de lavagem de dinheiro”.
O delegado Laércio Evangelista, coordenador do DRACO, foi taxativo: “O grupo investigado é o braço financeiro do PCC no Piauí”.
E não é pouca coisa. Segundo ele, a rede de Danillo e seu sócio Haran Santhiago Girão Sampaio operava um labirinto de 70 empresas — entre CNPJs de fachada, fundos de investimento e fintechs — criadas para mascarar capitais do crime organizado. Tudo articulado com o mesmo profissionalismo que o crime aprendeu com o colarinho branco. É o PCC de gravata e planilha, o crime travestido de empreendedorismo.
A Rede HD, conforme as investigações, também está no centro de outro crime: o golpe da “bomba baixa”, fraude que consiste em vender menos combustível do que o medido nas bombas. Milhares de consumidores teriam sido lesados em silêncio, pagando por um litro de gasolina e recebendo bem menos.
Quando confrontado, Danillo limitou-se a dizer que “não sabia de nada disso” e que “se algo ocorreu, foi sem o seu conhecimento”. Difícil acreditar que o dono de uma rede milionária não saiba o que acontece nos próprios postos — a não ser, é claro, que prefira fingir.
Mas o problema vai muito além do golpe contra o consumidor. O que as autoridades revelam é um sistema empresarial montado para lavar dinheiro do tráfico, do roubo e da extorsão. A rede de postos funcionava como um funil: o dinheiro sujo entrava disfarçado de lucro limpo, passava por fintechs e fundos, e reaparecia como patrimônio legítimo. “Carbono Oculto” não é um nome qualquer — é uma metáfora cruel para o dinheiro que queima silenciosamente a moral do país.
Durante o interrogatório, Danillo Coelho tentou se vitimizar, afirmando ser alvo de “armação política” e de “perseguição por concorrentes”. Um roteiro previsível, que ignora as dezenas de documentos, extratos e comunicações bancárias rastreadas pela investigação. Tudo indica que a Rede HD foi peça-chave em uma engrenagem bilionária do crime financeiro no Nordeste, com ramificações no Maranhão e no Tocantins.
Enquanto o empresário jura inocência, a Polícia Civil do Piauí cumpre mandados de busca, apreende computadores, celulares e valores em espécie — provas que falam por si. O que não se ouviu de Danillo, até o momento, foi um único argumento sólido para desmontar o elo entre sua fortuna e o dinheiro do PCC. A estratégia parece ser ganhar tempo, enquanto o rastro digital faz o que ele se recusa a fazer: falar.
A apreensão de seu passaporte, determinada pela Justiça, foi mais do que um gesto simbólico. É um sinal de que a impunidade, antes garantida pelo poder econômico, começa a perder validade. Não se trata apenas de um empresário sob investigação — trata-se de um sistema inteiro de corrupção e lavagem, sustentado por marcas conhecidas, políticos influentes e contas gordas em paraísos fiscais.
A Operação Carbono Oculto 86 expõe a face menos glamourosa do capitalismo brasileiro: aquela em que o lucro nasce da fraude, a prosperidade vem do crime e o sucesso se mede pela capacidade de escapar da lei. Danillo Coelho pode tentar limpar sua imagem, mas dificilmente conseguirá apagar as digitais do PCC deixadas nas bombas, nas planilhas e nos bastidores do poder.
Nossa reportagem não conseguiu contato com os dois empresários ou suas defesas. Entretanto asseguramos desde já espaço no Gazeta Hora1 para que possam apresentar suas defesas e esclarecimentos sobre o envolvimento dos dois nas investigações da Operação Carbono Oculto.
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