
Apesar das longas e técnicas explicações da Polícia Federal, o cidadão comum ainda se pergunta: afinal, como funcionava o esquema criminoso que levou à lacração da Rede de Postos HD, na Operação Carbono Oculto? A resposta é simples, mas revoltante: roubo em dose tripla — no litro, no tanque e na qualidade do combustível.
O crime começava na bomba, ou melhor, na “bomba baixa”. Com o uso de chips eletrônicos e controles remotos, os criminosos faziam o visor registrar 20 litros, quando o tanque recebia apenas 18. O golpe parecia pequeno, mas o impacto era gigantesco. Em um tanque de 60 litros, o motorista pagava R$ 360 e recebia apenas R$ 324 em gasolina. O resto virava lucro sujo.
Enquanto um empresário honesto lucra cerca de R$ 36 por tanque — comercializando a gasolina a R$ 6 — o criminoso dobra o faturamento — e ainda sorri no Instagram, posando com relógios suíços e taças de champanhe em Dubai. Tudo isso às custas do consumidor lesado e de um Estado que deixa de arrecadar milhões em impostos.
Mas a ganância não parava por aí. Com a fraude metrológica consolidada, o passo seguinte era adulterar o combustível. Misturas criminosas com solventes, álcool em excesso e produtos químicos tornavam a gasolina mais barata de produzir e mais rentável de vender. O lucro triplicava — e o carro do consumidor, claro, pagava a conta com pane seca antes da hora e motores danificados.
A Rede HD, com mais de 16 postos, transformou o golpe em um império financeiro. Cada litro fraudado era um degrau na escada do luxo: jatos particulares, viagens internacionais, cafés em Paris, almoços em Dubai e noites em Nova York. Enquanto isso, o trabalhador piauiense, dono de um pequeno posto, segue lutando com margens apertadas, torcendo para pagar as contas e, com sorte, descansar um fim de semana em Barra Grande ou Jericoacoara.
O esquema era engenhoso e perverso. As empresas de fachada criadas para lavar o dinheiro da fraude e dos negócios supostamente com o PCC disfarçavam os lucros milionários com operações fictícias e fundos de investimento fantasmas. No papel, parecia sucesso empresarial. Na prática, era crime organizado em formato de CNPJ.
Segundo a Justiça, os principais nomes — Haran Santhiago Girão Sampaio, Danillo Coelho de Sousa e suas esposas Thamyres e Thayres Leite Moura — movimentavam milhões com uma naturalidade que faria inveja a qualquer multinacional. Por isso, o juiz Valdemir Ferreira Santos determinou a retenção dos passaportes e o bloqueio de R$ 348 milhões em contas.
O mais impressionante é que, durante anos, tudo funcionou à vista de todos. Bombas “chipada”, combustível adulterado, empresas sem lastro e vida de celebridade nas redes sociais. Um crime sofisticado na técnica, mas tosco na moral.
O maior lesado? O consumidor, que pagava por um produto adulterado e incompleto. E o Estado, que via o imposto evaporar junto com a gasolina roubada. Mas há algo ainda pior: o descrédito da honestidade como caminho de sucesso.
Até o momento, ninguém foi preso, mas as apreensões e bloqueios judiciais indicam que a blindagem financeira dos empresários começou a ruir. O risco de fuga internacional foi apontado pelo magistrado, já que os investigados possuem aeronaves próprias e alto poder aquisitivo.
A Polícia Civil do Piauí cumpriu, na noite dessa quarta (05) e madrugada desta quinta-feira (06), uma série de mandados de busca e apreensão contra os empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Danilo Coelho de Sousa.
Haran Santhiago Girão Sampaio foi abordado por policiais civis no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, enquanto retornava a Teresina. Durante a abordagem, as autoridades apreenderam um computador, um celular e uma quantia em dinheiro. Já Danillo Coelho de Sousa foi interceptado no Aeroporto de Teresina, onde também foram encontrados um notebook, um celular e valores em espécie.
A Operação Carbono Oculto não prendeu apenas criminosos — ela expôs uma mentalidade, a de que o crime compensa. O desafio agora é mostrar que a Justiça também sabe abastecer, e que quem joga gasolina na corrupção cedo ou tarde vai se queimar.
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