
Não é de hoje que o Primeiro Comando da Capital (PCC) se comporta menos como uma facção criminosa e mais como uma multinacional do crime. O que começou nas cadeias paulistas transformou-se num império que movimenta bilhões de reais, emprega contadores, advogados, operadores financeiros — e agora, pasmem, até revende gasolina, diesel e etanol “batizados” com dinheiro sujo.
Nesta terça-feira (4), a Operação Carbono Oculto 86 escancarou o que todo mundo já desconfiava: o PCC não lava dinheiro apenas em bancos e fintechs, mas também em postos de combustíveis, um setor perfeito para disfarçar lucros e girar capital ilícito sem levantar suspeitas. A Polícia Civil interditou 49 estabelecimentos suspeitos de ligação direta com o crime organizado, distribuídos entre Piauí, Maranhão e Tocantins.
No Piauí, o mapa da contaminação é vasto: Teresina, Lagoa do Piauí, Demerval Lobão, Miguel Leão, Altos, Picos, Canto do Buriti, Dom Inocêncio, Uruçuí, Parnaíba e São João da Fronteira. No Maranhão, os nomes de Peritoró, Caxias, Alto Alegre e São Raimundo das Mangabeiras também figuram na lista. No Tocantins, São Miguel do Tocantins fecha o circuito do combustível criminoso.
O esquema, segundo as investigações, é de uma sofisticação de fazer inveja a Wall Street: empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs eram usados para “limpar” o dinheiro do tráfico, fraudar o mercado e ocultar patrimônio. Tudo com aparência de legalidade, notas fiscais emitidas, e a bênção de contadores e empresários locais.
O Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e o Ministério Público do Piauí identificaram ligações diretas entre empresários regionais e operadores financeiros do PCC já investigados nacionalmente. Em outras palavras, os postos que você abastece podem estar enchendo o tanque — e o bolso — de faccionados.
E não é exagero dizer que o crime aprendeu a ser empresário. Os tentáculos do PCC já alcançam provedores de internet, transportes coletivos, revendas de veículos e até construtoras, segundo investigações paralelas. Tudo para mascarar o verdadeiro combustível do império: o lucro do tráfico e da corrupção.
Curiosamente, enquanto o Estado luta para fechar buracos fiscais, o crime organizado gera “emprego” e arrecada milhões, com logística, contabilidade e até “compliance”. A diferença é que o balanço dessa “empresa” se mede em mortes, medo e poder paralelo.
As autoridades garantem que mais nomes virão à tona. Uma coletiva de imprensa, marcada para às 11h no Ministério Público do Piauí, promete revelar detalhes do escândalo e possíveis conexões políticas. Afinal, ninguém abre 49 postos de combustível da noite para o dia sem proteção e sem padrinhos.
O Brasil, definitivamente, parece ser o único país onde o crime organizado abastece o carro, o Estado e o sistema — tudo ao mesmo tempo. E como ironizou um delegado ouvido sob anonimato:
“Aqui, até o crime é empreendedor. Só falta entrar no Simples Nacional.”
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