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Polícia CRIME ORGANIZADO

Carbono Oculto: a gasolina que move o crime no Brasil

PCC amplia seus tentáculos e faz dos postos de combustíveis o novo front da lavagem de dinheiro

05/11/2025 às 08h31 Atualizada em 05/11/2025 às 11h09
Por: Douglas Ferreira
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Só no Piauí foram fechados 11 postos do PCC - Foto: Reprodução
Só no Piauí foram fechados 11 postos do PCC - Foto: Reprodução

Não é de hoje que o Primeiro Comando da Capital (PCC) se comporta menos como uma facção criminosa e mais como uma multinacional do crime. O que começou nas cadeias paulistas transformou-se num império que movimenta bilhões de reais, emprega contadores, advogados, operadores financeiros — e agora, pasmem, até revende gasolina, diesel e etanol “batizados” com dinheiro sujo.

Nesta terça-feira (4), a Operação Carbono Oculto 86 escancarou o que todo mundo já desconfiava: o PCC não lava dinheiro apenas em bancos e fintechs, mas também em postos de combustíveis, um setor perfeito para disfarçar lucros e girar capital ilícito sem levantar suspeitas. A Polícia Civil interditou 49 estabelecimentos suspeitos de ligação direta com o crime organizado, distribuídos entre Piauí, Maranhão e Tocantins.

No Piauí, o mapa da contaminação é vasto: Teresina, Lagoa do Piauí, Demerval Lobão, Miguel Leão, Altos, Picos, Canto do Buriti, Dom Inocêncio, Uruçuí, Parnaíba e São João da Fronteira. No Maranhão, os nomes de Peritoró, Caxias, Alto Alegre e São Raimundo das Mangabeiras também figuram na lista. No Tocantins, São Miguel do Tocantins fecha o circuito do combustível criminoso.

Operação Carbono Oculto já estava nas ruas nas primeiras horas da manhã - Foto: Reprodução

O esquema, segundo as investigações, é de uma sofisticação de fazer inveja a Wall Street: empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs eram usados para “limpar” o dinheiro do tráfico, fraudar o mercado e ocultar patrimônio. Tudo com aparência de legalidade, notas fiscais emitidas, e a bênção de contadores e empresários locais.

O Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e o Ministério Público do Piauí identificaram ligações diretas entre empresários regionais e operadores financeiros do PCC já investigados nacionalmente. Em outras palavras, os postos que você abastece podem estar enchendo o tanque — e o bolso — de faccionados.

E não é exagero dizer que o crime aprendeu a ser empresário. Os tentáculos do PCC já alcançam provedores de internet, transportes coletivos, revendas de veículos e até construtoras, segundo investigações paralelas. Tudo para mascarar o verdadeiro combustível do império: o lucro do tráfico e da corrupção.

Bens apreendidos ou sequestrados - Foto: Reprodução

Curiosamente, enquanto o Estado luta para fechar buracos fiscais, o crime organizado gera “emprego” e arrecada milhões, com logística, contabilidade e até “compliance”. A diferença é que o balanço dessa “empresa” se mede em mortes, medo e poder paralelo.

As autoridades garantem que mais nomes virão à tona. Uma coletiva de imprensa, marcada para às 11h no Ministério Público do Piauí, promete revelar detalhes do escândalo e possíveis conexões políticas. Afinal, ninguém abre 49 postos de combustível da noite para o dia sem proteção e sem padrinhos.

O Brasil, definitivamente, parece ser o único país onde o crime organizado abastece o carro, o Estado e o sistema — tudo ao mesmo tempo. E como ironizou um delegado ouvido sob anonimato:

“Aqui, até o crime é empreendedor. Só falta entrar no Simples Nacional.”

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