
No coração do sertão piauiense, a comunidade quilombola de Lagoa das Emas vive uma nova fase. Onde antes faltava um espaço para encontros e atividades coletivas, agora existe um centro comunitário construído com apoio de alunos do Colégio Santa Cruz, de São Paulo. O prédio simples de alvenaria se tornou símbolo de união e esperança, abrigando reuniões, cursos, festas e uma cozinha comunitária que produz a merenda escolar local — garantindo renda e autonomia às famílias da região.
A história começou em 2016, durante uma viagem de estudos organizada pelo colégio. O grupo de estudantes passou por Petrolina, o Rio São Francisco e o Parque Nacional da Serra da Capivara, e conheceu Lagoa das Emas. A convivência com os moradores tocou os alunos, que decidiram continuar ajudando mesmo após o retorno a São Paulo. “Eles voltaram dizendo: ‘não podemos deixar o Piauí para trás’”, lembra Joana Procópio de Carvalho Ferreira, diretora do colégio.
O projeto foi desenvolvido em conjunto com os próprios moradores e executado com mão de obra local. A ideia nunca foi doar algo pronto, mas construir junto um espaço que fizesse sentido para a comunidade. Assim nasceu o centro comunitário, com biblioteca e cozinha coletiva, que hoje também serve para preparar a merenda das escolas — trazendo recursos públicos para o quilombo e fortalecendo sua autonomia.

Com o sucesso da iniciativa, os alunos criaram a ONG Veredas, responsável por dar continuidade ao trabalho no Piauí. Durante a pandemia, o grupo manteve o vínculo com Lagoa das Emas e conseguiu apoio do consulado da França, que destinou R$ 200 mil para cestas básicas e cartões de alimentação a famílias da região. A ONG também colabora com o Instituto Olho d’Água, que oferece atividades educativas, e ajuda na criação de um pequeno museu local para preservar a memória das famílias quilombolas.
Para arrecadar recursos, os estudantes organizam o Piauí Fest, um festival cultural em São Paulo com música, rifas e comidas típicas. Toda a renda é destinada às ações no sertão. “A gente mesmo faz tudo: vende água, monta as barracas, organiza as apresentações. É um esforço coletivo”, conta Helena Baroni, de 15 anos, uma das organizadoras. A próxima edição será em 1º de novembro.
Mais do que uma obra de tijolos, o centro comunitário de Lagoa das Emas representa a força de uma parceria que atravessou o mapa do Brasil — unindo o interior do Piauí a jovens que aprenderam, na prática, que educação e empatia podem transformar realidades.
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