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“Nunca tínhamos visto uma inflação assim”, diz presidente da Nestlé Brasil sobre o cacau e café

Enquanto o preço de cacau e café dispara, a gigante suíça enfrenta o Brasil com planejamento, inovação e olho no consumidor, mantendo produtos em 99% dos lares

20/09/2025 às 06h23
Por: Douglas Ferreira Fonte: Exame,com
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Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil - Foto: Reprodução
Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil - Foto: Reprodução

“Tivemos uma inflação de matéria-prima muito elevada, principalmente cacau e café. Nunca tínhamos visto uma inflação assim”, dispara Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil, em entrevista exclusiva à EXAME durante o podcast De frente com CEO. A frase não é um alerta qualquer: é o retrato de uma crise que testa até as maiores multinacionais.

Apesar do aumento de dois dígitos na receita no último ano, a pressão dos custos fez o volume de vendas despencar, e isso não é detalhe. “Temos crescimento em valores, mas, com essa inflação, estamos decrescendo em volume. E isso é muito sério, porque, se o volume cai, nossas fábricas ficam ineficientes — e isso não podemos permitir”, afirma Melchior. Em outras palavras, menos volume significa mais custo unitário e menos competitividade.

No Brasil, o desafio do cacau e do café é quase épico. Cerca de 70% do cacau da Nestlé vem de lavouras brasileiras, o restante é importado da Costa do Marfim e Gana. “O que estamos fazendo agora é trabalhar para melhorar a produção e aumentar a produtividade do cacau brasileiro, e como podemos ‘tecnificar’ essas lavouras”, explica o CEO. O objetivo é claro: levar o cacau ao mesmo patamar de sofisticação que o café e o leite já têm.

Sobre café, Melchior é categórico: “Todo o café que compramos e usamos no Brasil é certificado. Ele está no que nós chamamos de Coffee Plan”. Mas certificação não basta quando o consumidor decide a recompra em segundos. “Nós trabalhamos com produtos que estão em 99% dos lares. Se eu falhar hoje com você, amanhã você já não compra mais,” alerta o presidente. É responsabilidade gigante — e pressão diária — manter gôndolas abastecidas, preço competitivo e qualidade impecável.

Apesar de o Brasil ser a terceira maior operação da Nestlé no mundo, Melchior joga um balde de água fria sobre números: “O Brasil não é o terceiro país do mundo nem em economia nem em número de habitantes. Isso significa que, durante os 103 anos de presença no país, as gerações anteriores de profissionais trabalharam superbem”. Exportações representam menos de 10% do faturamento; o foco segue sendo o mercado interno.

Inovação na Nestlé não nasce do acaso. “Precisamos manter os clássicos, Leite Moça, Ninho, cafés, chocolates, vivos e rentáveis, porque inovação nunca nasce grande, é o core que permite inovar”, explica Melchior. Entre redução gradual de açúcar e sódio, vitaminas adicionais e embalagens mais sustentáveis, cada mudança passa pelo teste “60-40”: “60% dos consumidores, às cegas, têm de preferir o teu produto versus qualquer produto da concorrência. Então, você não pode tomar decisões, seja de sabor, seja de outras coisas, porque às cegas, sem saber que o produto é teu, eles podem escolher um outro. E nós temos de ter 60% dos consumidores preferindo o teu”.

Quanto às aquisições, Melchior evita romantizar o tema: “Aquisição não é estratégia. Ela pode ser um acelerador da tua estratégia, mas não é a estratégia em si. Então, nós sempre estamos vendo no mercado se tem oportunidades de aquisições que possam acelerar a nossa estratégia numa categoria ou segmento”.

O impacto da inflação sobre café e cacau não é só local: choques climáticos no Sudeste Asiático, secas e queimadas no Brasil reduziram a safra e a qualidade, impulsionando os preços internacionais. “A florada do café brasileiro no ano passado foi ruim, com seca e queimadas, o que resultou em grãos menores e de qualidade inferior. Isso antecipou a alta que vimos no início deste ano”, explica Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro. Já o cacau sofre com questões estruturais: oferta sensível a clima e pouca diversidade genética das plantas. “A oferta de cacau sente de forma mais intensa qualquer variação climática, enquanto a demanda segue firme e crescente, já que o chocolate é um produto que agrada em diferentes mercados”, completa Serigati.

Enquanto isso, o mercado de leite oferece um respiro: custos de ração mais baixos permitiram recomposição de margens. Mas mesmo nesse cenário relativamente confortável, Melchior não relaxa. O desafio é manter consistência em meio a preços recordes, clima instável e consumidor cada vez mais exigente. “Nesse ano devemos crescer duplo dígito”, afirma o CEO, mostrando que a Nestlé encara o Brasil como campo de batalha e laboratório de inovação ao mesmo tempo.

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